quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A aliança PT-PSDB


Ontem, no 33o Encontro Anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), Luiz Werneck Vianna deu um salto em suas análises sobre o governo Lula. Até então, fazia comparações com Getúlio Vargas (das quais discordei em um número da revista Política Democrática, editada pela Fundação Astrojildo Pereira, em que nós dois analisamos esta possível identidade. Ver revista aqui) e o lulismo. Embora não tenha abandonado esta vertente analítica, na mesa de ontem fez uma comparação mais ampla: que Getúlio teria iniciado a "modernização reacionária" do Brasil e que Lula estaria finalizando tal tarefa. O conceito de modernização conservadora foi elaborado por Barrington Moore Júnior, para citar países que desenvolveram sua base produtiva sem realização de reforma agrária, o que teria originado uma sociedade tecnicamente moderna, mas socialmente muito desigual. Inicialmente este autor tratou da Alemanha (passagem do
século XIX para o XX, quando o processo de industrialização contou com a
participação fundamental dos grandes proprietários de terra). Werneck Vianna adota um viés mais gramsciano, dialogando com o conceito de “revolução passiva”. No caso, teria iniciado com o golpe de 1930, quando

“as amplas demandas por modernização econômica e social são acolhidas por setores tradicionais das elites, sob a liderança dos estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul [...] com o apoio de parte do tenentismo, das camadas médias e da vida popular nos centros urbanos [...] sem se desprender, contudo, das suas bases agrárias, de onde as elites tradicionais extraem recursos políticos e sociais para a sua conversão ao papel de elites modernas, vindo a dirigir o processo de industrialização”. VIANNA, Luiz Werneck. Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira. Dados, Rio de Janeiro, v. 39, n. 3, 1996).


Acredito que o lulismo é distinto, pela própria somatória de ideários muito distintos do varguismo (pragamatismo sindical + legado da burocracia de organizações de esquerda + fomento ao mercado interno). Mas o que gostaria de comentar é a discussão que ocorreu na mesa em que Werneck Vianna expunha seus argumentos. Márcio Pochmann e ele debateram quem teria condições de finalizar esta tarefa: Dilma ou Serra. Uma discussão meio de botequim, demonstrando o quanto a ANPOCS vem perdendo rigor. De qualquer maneira o que gostaria de expor é minha crença que a aliança tucana-lulista é questão de tempo.
Ambos (PT Lulista e Tucanos) apresentam o mesmo programa, com sutis diferenças de método. Ambos se aproximariam do que denominamos no século XX de social-democracia. E até a composição social se aproximou muito a partir da segunda metade dos anos 90: as direções são recheadas de parlamentares, executivos e ex-componentes de grupos clandestinos que enfrentaram a ditadura militar.
O problema de Fernando Pimentel é que subordinou a lógica petista à lógica tucana, de Aécio Neves. Seu governo em BH desfigurou totalmente o partido. Foi a mais pragmática e tucana das lideranças petistas, até então. Não por outro motivo que abriu o caminho para esta possível aliança. Mas diluiu a identidade partidária em nome da aliança (ou fusão).
Contudo, do ponto de vista sociológico, a aproximação parece inevitável e evidente. O expurgo de lideranças para o PSOL e recentemente para o PV, assim como a aliança à forceps com o PMDB em todos Estados brasileiros, criam as condições para tal aproximação. Explico esta última iniciativa lulista. Ao exigir que os diretórios estaduais do PT esqueçam seus sonhos e diferenças históricas, o lulismo adestra o petismo. Enfim, cria condições culturais e políticas para a aproximação que considero inevitável. Algo que Poulantzas denominaria de "bloco no poder". E que só o lulismo pode arquitetar.

Um comentário:

Marquim_MG_JPT disse...

enquanto petista, vejo dissidências e até mesmo atronfiações no debate interno por conta da conjunctura arquitetada por Fernando Pimentel. Mas, apoio fielmente a sua ideia professor, de que é um processo invevitável esta possível aliança. Infelizmente ou felizmente, a política ganhou um ar muito pragmático nos últimos anos, do contrário, não se ganha eleições e muito menos se promove publicitações ou programas sociais que realmente podem ser efetivos na vida do Povo. Por isso, Fernando Pimentel me parece o candidato mais adequado se comparado ao Patrus ( lembrando a briga interna que o partido enfrenta em prol da escolha do candidato petista para o governo do estado de Minas Gerais ). Mesmo que ideologicamente muitos militantes gostem muito do Patrus e reconhecem o trabalho do mesmo no MDS,assim como publicado neste artigo, pode-se negar esta possibilidade, uma vez que Patrus não representa esta nova etapa - chamada por alguns de "Neo-petismo" - que vem enfrentando o partido dentro da lógica da relação de poder a nível nacional ou não.