domingo, 11 de outubro de 2009

Che 2: A Guerrilha


Assisti, hoje, a segunda parte do filme Che (A Guerrilha). É quase um filme-documentário, relatando a angústia de uma guerrilha perdida desde o início. O filme é sutil ao relatar a traição do(s) partido(s) comunista(s) em relação ao plano de Che. Para quem não conhece a história, fica obscura a rápida conversa de Fidel sobre o local de treinamento na Bolívia que foi exatamente numa região e em condições exatamente opostas às solicitadas por Che.
Vendo o filme emergiram duas reflexões, meio do nada. A primeira, a lembrança do Manual de Guerrilha, escrito por Che. O interessante é que só me lembro da passagem em que ele ressalta que não se pode lavar os talheres e utensílios utilizados nos acampamentos apenas com água. Enfatiza o uso de sabão para evitar contaminação. Sei lá o que passa na mente para destacar (a tal memória flash) uma passagem tão secundária!!
Também fiquei pensando (e é óbvio que a conversa de Che, já capturado pelo exército boliviano, em que ele diz que sua morte poderia despertar os camponeses da Bolívia) sobre a ironia fina de um governo indígena na Bolívia, o governo de Evo Morales, líder dos camponeses indígenas que Che tentava recrutar e que mantinham uma enorme desconfiança (no mais, uma característica das populações rurais) frente aos seus sonhos e discursos.

Um comentário:

Guilherme Scalzilli disse...

“Che”

Ao editar o extenso material bruto à sua disposição, Steven Soderbergh deveria ter sacrificado a primeira parte do enredo para acomodar a segunda num único longa-metragem. Preservando aquela como obra autônoma, a inferioridade da seqüência prejudica o conjunto.
É fácil esnobar o projeto. A crítica cinematográfica impregnou-se de certa obtusão da intelectualidade conservadora, empenhada no ataque “iconoclasta” aos símbolos históricos da esquerda. Essa postura ideológica termina empobrecendo as análises propriamente estéticas, reduzidas a apologia política.
Considerado em sua essência cinematográfica, o primeiro “Che” é quase grandioso. O maior equívoco de Soderbergh foi justamente esforçar-se tanto para evitar o panfleto e a apologia revolucionária. Indiferente ao aspecto épico da aventura insurrecional, tenta esvaziar os personagens de cargas heróicas. Por isso incorre no equívoco oposto, o de realizar um filme de ação frio e distante.
A segunda parte, totalmente dedicada à fracassada guerrilha boliviana, parece anticlimática graças à carência de sedução visual. Não é qualquer cinematógrafo estrangeiro que consegue apreender a exuberância da natureza tropical sob suas luzes inclementes. Para atingir um nível como o de Werner Herzog em seus filmes amazônicos, é necessário contar com a câmera de Thomas Mauch (além do arrojo visionário). Mas o tal Peter Andrews dos créditos é o próprio Soderbergh, que assinou com esse pseudônimo a fotografia de quase todos os seus filmes. Tivesse contratado um esteta como o nosso Walter Carvalho, o martírio de Guevara ganharia importância antológica (basta lembrar a beleza natural captada em “Lavoura Arcaica”, por exemplo).
Em resumo, “Che” é muito melhor do que afirmam seus depreciadores, embora fique abaixo dos propósitos iniciais. Apenas a interpretação quase mediúnica de Benício del Toro seria suficiente para transformá-lo, no mínimo, numa lição de mimetismo dramático. Como diz seu personagem, no desfecho da primeira parte, ele está “increíble”.