domingo, 28 de fevereiro de 2010

Notícas de Cuba

Do twitter de Yoani Sanchez:
Me cuenta Gisela Delgado que Coco Fariñas está muy mal. Tiene frío y dolor en el abdomen después de varios días de huelga de hambre y sed.

Entendo com clareza a postura de Lula ao dizer que não comenta questões internas de um país que não o seu, principalmente quando está visitando este país. A segunda parte (está visitando este país) se justifica. Mas a primeira parte (não critica política interna de outro país) fica meio sem fundamento depois do que o Brasil fez em Honduras.

São Paulo 2: os novos compositores paulistanos


A revista da Folha de hoje (circulação restrita)faz um balanço da nova geração de compositores paulistanos que seguem a trilha de Adoniran Barbosa, Premeditando o Breque e chega em Arrigo Barnabé. Um estilo muito próprio e narrativo da cidade de pedra. A matéria da revista é muito bem humorada e revela o lado negro e de crítica ácida do paulistano, comparando com o auto-elogio da bossa nova carioca.
Vou reproduzir algumas letras:

Estação da Luz (de Peri Pane-Marcos Dávila):
Feche os olhos
ou ouvidos
As narinas
Todos os sentidos
Estação final
Diga adeus à sua vida

Depressão Periférica (de Kiko Dinucci):
Pra chegar no cnetro, eu gasto mais de 15 paus
Perua, trem, ônibus intermunicipal

Balada da Paulista (de Lulina, na foto):
Puta, meu, tipo, nossa,
cara então, puta, meu, tipo, nossa
cara, então puta, meu, tipo assim
tipo, puta, meu tipo, cara.
Cola na balada de sexta
Mõ legal

São Paulo 1: Dalva e Dito


Fui até o novo restaurante de Alex Atala, o Dalva e Dito, focado na culinária brasileira. Se eu tivesse um perfil um pouco menos glutão, poderia ter ficado no couvert, tal a "explosão de sabores" (este termo de uso abusivo pelo pessoal da gastronomia brasileira). Uma fatia de pão de milho e outra de pão mais rústico, acompanhado de um mini-lata de manteiga Aviação. Mas não só. Uma pimenta de cheiro recheada de carne de porco. Quatro tipos de pimenta em outro pote. Dois biscoitos de polvilho altos, numa versão do biscuit. Acompanham, ainda, uma pasta de feijão preto com micro-bacons e um marinado de beringela com maçã. Fiquei meio perdido. Mesmo assim, procurando manter minha silhueta que carrego há anos, pedi uma entrada: cuscuz paulista (que lembrou o que minha mãe a avó faziam na minha infância), com camarão (elas faziam com sardinha) e uma salada verde (acho que tinha azedinha e limão siciliano). Pedi sugestão sobre o prato principal e acabei caindo de cabeça num Porco na lata (aquela da roça, pedaços de porco na lata com banha!!) com purê de batata e pequi (no caso, óleo de pequi). Nem consegui pedir sobremesa. Na saída, o barman Maurício resolveu me dar um presente: perguntou se eu aceitaria provar uma experiência que estavam fazendo: capirinha de açaí. Não podia me fazer de difícil e provei... Açaí do Amazonas triturado com pedaços de banana misturados com cachaça de pitanga. Caramba!! Saí rindo à toa.
Endereço:
Dalva e Dito (o nome vem da Estrela D´Alva e São Benedito)
Rua Padre João Manoel, 1115 (esquina com Barão de Capanema)
Telefone: (11) 3062-6282

PS: Para se ter uma idéia das sobremesas, cito uma, a tradicional Romeu e Julieta. Lá, é assim: fatias de goiabada cascão com lascas de queijo fresco, acompanhadas de uma mistura de creme de goiaba com catupiry e pimenta rosa. Juro que não comi. Mas é de dar vontade de bater em todo mundo que já comeu por pura inveja.

José Mindlin: perdemos nosso único mecenas


Já temos tão poucos empresários com espírito público em nosso país e acabamos perdendo o único mecenas. Aos 95 anos o bibliófilo, advogado e empresário José Mindlin faleceu na manhã deste domingo. O corpo de Mindlin está sendo velado no hospital Albert Einstein e o enterro está marcado para as 15h deste domingo (28) no Cemitério Israelita, em São Paulo.

Contato com Talca, Chile


A cidade mais atingida pelo terremoto no Chile foi Talca, ao sul de Santiago. O prefeito é Patricio Herrera Blanco (na foto, ao centro). Os contatos são: Teléfono 56-71-203651 alcaldía@talca.cl.
Os meios de comunicação devem retornar hoje ou amanhã (segunda-feira).

DATAFOLHA

Detalhando última enquete DATAFOLHA

Do blog de Luis Nassif:

Cenários regionais, comparando com a pesquisa Datafolha de meados de dezembro:

Nordeste: Dilma vai de 31 a 36, Serra vai de 28 a 22. A diferença a favor de Dilma cresce 11 pontos.
Norte/Centro-oeste: Serra vai de 38 a 32, Dilma vai de 24 a 29. A diferença cai 11 pontos. Temos empate técnico aqui.
Sudeste: Serra vai de 41 a 38, Dilma vai de 19 a 24. A diferença cai 8 pontos.
Sul: Serra vai de 39 a 38, Dilma vai de 19 a 24. A diferença cai 6 pontos.

Na margem de erro, Dilma já empata com Serra nas faixas de 25 a 34 anos, de 35 a 44 anos e de 45 a 59 anos, ou seja, na faixa de 25 a 59 anos. Além disso, ela ganhou 7 pontos porcentuais tanto entre os mais jovens (16 a 24 anos), como entre os mais velhos (60 anos ou mais), as duas únicas faixas em que ela ainda não empata com Serra.
Serra cresceu 6 pontos entre os mais ricos (mais de 10 Salários mínimos) e 3 pontos entre os mais escolarizados (nível superior).
Dilma empata com Serra no voto masculino (32 para ambos).
A aprovação do presidente Lula vai a 73%, que é o recorde histórico do Datafolha (a Folha limitou-se a dizer que “Lula mantém aprovação recorde).

Ainda sobre o Chile


O centro do terremoto foi a região de Maule, uns 200 km ao sul de Santiago, a capital do Chile. Estive lá recentemente, participando de um evento sobre gestão participativa. Talca, a capital de Maule, era exemplo de gestão participativa no Chile, governada pelo Partido Socialista, cujo governante é Patricio Blanco. Uma cidade pacata (como se vê na foto que ilustra esta nota). Estou tentando contato com eles, mas nada se consegue via internet, incluindo o acesso ao site da Prefeitura (www.talca.cl).

sábado, 27 de fevereiro de 2010

DATAFOLHA; diferença entre Serra e Dilma cai para 4%

Pesquisa Datafolha publicada na edição de domingo da Folha, mostra que a ministra petista Dilma Rousseff (Casa Civil) cresceu cinco pontos nas pesquisas de intenção de voto de dezembro para janeiro, atingindo 28%. No mesmo período, a taxa de intenção de voto no governador de São Paulo, José Serra (PSDB), recuou de 37% para 32%. Com isso, a diferença entre os dois pré-candidatos recuou de 14 pontos para 4 pontos de dezembro para cá.
A pesquisa foi realizada entre os dias 24 e 25 de fevereiro. Foram ouvidas 2.623 pessoas com maiores de 16 anos.

Resultado da enquete de fevereiro

Resultado da enquete do blog (para onde vai Lula quando deixar o governo?):


Para organismo internacional (26%)
Para um instituto focado no apoio à África (7%)
Para um instituto focado no seu retorno em 2014 (35%)
Para sua casa (35%)

Havia uma empate técnico, durante semanas, entre organismo internacional e instituto focado no seu retorno em 2014. Nos últimos dez dias o item "para sua casa" registrou aumento de votos e empatou com o item anterior.

Breve comentário sobre terremoto chileno


Estive em Santiago do Chile na década de 70, em plena ditadura militar. Meu pai tentava repassar notícias para o Estadão (ele era correpondente do jornal) e era censurado e grampeado. Na Plaza de Las Armas, próximo de nosso hotel, distribuíam panfletos, em ações relâmpagos, pelo NO (de alteração da constituição). Era impressionante: as ruas ficavam lotadas de homens de óculos escuros com gravadores gigantes para deixar claro que todos estavam sendo vigiados e soldados com metralhadoras circulavam em caminhões por toda cidade. A oposição saía às ruas de uma hora para outra, gritava palavras de ordem, e se dispersava, sumindo nas ruas do centro de Santiago. Uma ação coordenada de enfrentamento e resistência.
Numa tarde, estávamos no hotel e percebemos um barulho no lustre. Achamos estranho mas, logo começou a balançar tudo o mais. Não foi um terremoto forte, mas ficamos meio alertas. Nunca havíamos presenciado uma situação destas. Ligamos para a recepção do hotel e a intrução era para ficarmos longe de janelas (para não sermos feridos em caso de quebra de vidros). Foi estranho. E não era um terremoto de grande envergadura. A sensação de impotência é das piores.

O círculo vicioso das ongs brasileiras

Estou concluindo consultoria à uma ong paulista, de muita importância na área social. O que me dá mais elementos para consolidar um diagnóstico que venho fazendo desde o ano passado e que socializo aqui para provocar o debate entre os internautas:
a) A queda de financiamento externo das ongs brasileiras, ao longo dos anos 90 e início deste século, deslocou a fonte de recursos para o Estado brasileiro (da comunidade solidária aos convênios com governos municipais, estaduais e ministérios);
b) Este deslocamento transformou grande parte das ongs menores (a grande maioria) em agências de terceirização de serviços sociais e assistenciais. Despolitizou as ongs. Os salários e custos operacionais das ongs são baixíssimos, muito abaixo do mercado (para aquelas que entraram neste circuito);
c) Criou-se, assim, um curto-circuito organizacional: as diretorias de ongs viraram ficção e quem manda efetivamente são os gerentes de projeto. Isto porque a maioria dos convênios possui rubrica fechada, sobrando muito pouco recurso para pagamento de outras atividades não relacionadas diretamente com a execução dos projetos conveniados. Sem outras fontes de recursos, as ongs tornaram-se extensões de secretarias. Sem bônus, só ônus.

Aposta: Pimentel será ministro e José Alencar candidato a governador

Se a observação da nota abaixo estiver correta, a equação fica:
a) Pimentel no ministério de um eventual governo Dilma, com poderes semelhantes ao do que foi de José Dirceu no governo Lula;
b) José Alencar será o candidato a governador do PT em Minas Gerais;
c) Patrus será candidato a senador.

E Hélio Costa? Já combinaram com ele?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ainda sobre a entrevista de Fernando Pimentel na Folha

De um arguto analista político de BH:
"Ele não fala como candidato a governador. Fala como futuro ministro. Ele respondeu aos ataques da Veja e do Estadão à candidatura Dilma. Não se preocupou com Minas. A conclusão é que ele abandonou a disputa, ainda que fique para negociar e sair no final. Deixará para o Patrus ou tentará a montagem de um palanque único. O fato é que, a julgar pela entrevista, ele não será candidato a governador."

De Salvador para São Paulo

Estou em Salvador concluindo consultoria para reestruturação da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola S.A. Hoje à noite estarei em São Paulo, onde desenvolvo consultoria para o CEDECA Sapopemba. Para justificar as poucas postagens no blog nesta semana.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O artigo que escrevi que Merval cita na nota abaixo

O Futuro do PT
Por RUDÁ RICCI
1. A promessa de um outsider
Uma das trilhas para analisar o futuro do partido do Presidente Lula é organizar um olhar em perspectiva, o que inevitavelmente gera comparação entre sua promessa original e sua realização efetiva. Por aí é possível localizar mais nitidamente o lugar do partido no interior do sistema partidário nacional.
Ao adotamos esta trilha analítica, a primeira questão posta é compreender a promessa feita na origem do PT. Ao contrário da imagem que ficou da primeira campanha eleitoral que o partido participou, o PT não prometia a revolução socialista ou o revanchismo em seus documentos originais. Era, no seu início, um partido outsider, se aproximando de uma revolução de hábitos e práticas políticas, colocando em xeque até mesmo a tradição revolucionária das esquerdas do país. Não por outro motivo, os documentos oficiais dos primeiros anos deste partido negavam todas estruturas políticas autoritárias e centralizadoras. Criticavam, pela esquerda, o socialismo real existente e, por tabela, os acordos de cúpula. Era o ideário anti-institucionalista dos movimentos sociais dos anos 80. Um discurso que criava um frescor no sistema partidário do país. Na origem, o PT foi o “maio de 68” da política brasileira.
Por este motivo, os parlamentares eram pautados pelas deliberações dos anônimos militantes de base, organizados em diretórios municipais, zonais ou núcleos (uma mescla entre comunidade de base e célula de organizações de esquerda). Esta é a lógica que isolou parlamentares que sugeriam o apoio do partido à uma candidatura oposicionista pela via indireta quando da derrota da campanha das Diretas Já. Deputados como Airton Soares e Marco Aurélio Ribeiro foram enquadrados pela base partidária, possivelmente um fato inédito na vida dos partidos políticos do país.
A elaboração de programas de governo consistia num complexo processo de discussões presenciais de militantes de base, criando o que alguns dirigentes, irritados, chamavam de “colcha de retalhos”. Até mesmo a maior corrente interna, a Articulação, adotou uma metodologia inspirada neste ideário, o “consenso progressivo”, em que divergências eram postas de lado, para serem retomadas mais adiante.
Esta lógica durou até 1990. O que prometia o partido até este momento? Prometia uma mudança radical no sistema partidário, a transparência na gestão pública, a inversão de prioridades (prioridade em investimentos sociais e em regiões mais inóspitas e marginalizadas) e controle social. Prometia, ainda, avanços progressivos, dentro da ordem, na direção do socialismo. Um socialismo, é verdade, não muito bem explicado, meio libertário, meio autonomista, meio vocacionado ao conselhismo. Não por outro motivo, o velho dilema entre reforma e revolução era retomado com freqüência em debates internos do partido.
E veio 1989. Por pouco este partido outsider não conseguiu eleger o Presidente da República. Derrotou o trabalhismo de Brizola. Derrotou o gigante PMDB. Mas, significativamente, perdeu, no final, para o mais outsider dos candidatos. Um partido outsider chegava à reta final da disputa contra um candidato outsider. Foi um período especial da história política brasileira, que perdurou por mais alguns anos. Outros candidatos de estilo exótico, tendo em Enéas a sua expressão maior, tiveram votação expressiva. O Brasil revelava com toda sua força a desconfiança em relação à sua ordem política. Mas a direção partidária leu outros sinais. A quase vitória assustou muitos dirigentes petistas. Faltou pouco. Por esta fresta surgiu algo que o ideário original do petismo execrava: o realismo político.
O realismo político é o avesso da utopia política. Se a utopia projeta o outsider como possível, o realismo opera ao contrário: adapta-se às condições postas, aos limites da ordem. É deste momento que o conceito de correlação de forças virou senha para justificar o óbvio, ou seja, que o PT era outsider. Sendo outsider, dificilmente teria condições de se impor sobre as outras forças. Mas esta é justamente a lógica de quem se posiciona como outsider: negar o establishment.
O desafio que se apresentou a partir daí era o de se apoderar dos instrumentos e lógicas institucionalizadas, procurando reverter a correlação de forças na medida em que o PT se colocava integralmente como parte do sistema e lógica partidários.
Enfim, 1990 foi o momento da inflexão do partido. O momento seguinte não foi exatamente a Carta ao Povo Brasileiro, nem mesmo a vitória de Lula nas eleições presidenciais. A prova de fogo foi a crise aberta pelo que ficou conhecido como mensalão. Foi o último pedágio de entrada do petismo ao sistema tradicional de operação dos partidos brasileiros.

2. Da promessa ao realismo político

O PT não é o mais importante partido do país. Este posto pertence ao PMDB (em número de parlamentares, prefeitos, total de votos). Mas o lulismo é maior que o PT e, possivelmente, maior que o PMDB. O lulismo é uma concepção de gestão política e do Estado que inverteu absolutamente o ideário petista. O PT, por seu turno, se “americanizou”, ou seja, forjou-se como uma grande máquina eleitoral, ao estilo dos partidos Democrata e Republicano, um “partido-empresa”, onde a burocracia interna, desconhecida por grande parte da população, até mesmo dos filiados, opera alianças, apoios, financiamento, peças publicitárias. Obviamente que há resistências internas. Mas as correntes internas contam muito pouco para a prática do PT.
O efeito imediato do lulismo como força política superior a do PT é a dissociação da base social e eleitoral de um de outro. O partido ainda trilha o caminho aberto pelo lulismo, de transição de uma base organizada e de grandes centros urbanos para a população de baixo poder aquisitivo, dos rincões do país e desorganizada. Uma mudança que retoma um dilema antigo da esquerda brasileira: a de se tornar popular sem perder o ideário de esquerda. Este é um dilema enfrentado desde a fundação do PCB, na década de 20. A esquerda brasileira tem profundas dificuldades para se tornar popular em virtude do lastro teórico de origem européia, do mito do partido de quadros e da necessária tutela do partido sobre os destinos das ações sociais. Tivemos autores que tentaram criar um pensamento de esquerda genuinamente brasileiro, como Caio Prado Jr ou Florestan Fernandes. Mas pensar o Brasil nunca foi tarefa fácil, porque somos uma nação multifacetada e corroída por uma cultura moralista e conservadora. O lulismo dialoga diretamente com esta cultura popular, complexa e conservadora. Fala para a classe média emergente, que desconfia da política mas é extremamente pragmática o que, na prática, a leva a ser cínica. Aceita, mas sem nenhuma fé.
O lulismo, ao se submeter à ordem do sistema partidário, dialoga com esses segmentos sociais desorganizados e sem qualquer pretensão pedagógica, sem buscar enfrentar a cultura conservadora. Seu diálogo é rebaixado, procurando criar uma identidade permanente. Ora, ser reflexo político de uma base social conservadora é efetivamente trilhar pelo conservadorismo. E este é o motivo pelo qual o lulismo – e os dirigentes petistas que abraçaram o realismo político - perdeu toda inspiração de um projeto de esquerda. O lulismo é social-liberal. Por este motivo, o PT se tornou figura menor. O petismo não se tornou popular. Em contraste com o lulismo, sua imagem pública se tornou carrancuda e, para a grande imprensa, oportunista.
O PT tem dois momentos muito distintos em sua história. Nos anos 80 foi um partido de massas porque abraçou a lógica e ideário dos movimentos sociais daquele período, marcado pela democracia direta, o anti-institucionalismo, o anti-capitalismo, o participacionismo e o comunitarismo cristão. Mas em meados dos anos 90, foi capturado por um grupo político muito menos público que as tendências e correntes petistas (ex-militantes de esquerda organizada oriundas do PCB e dirigentes sindicais metalúrgicos e bancários, o setor mais controlador e autoritário do sindicalismo brasileiro). Esta cúpula adotou práticas estranhas à origem do partido, deixaram de lado a utopia que gerava energia à militância e agiram de maneira rebaixada, pragmática, focada na vitória a qualquer custo.
Nos anos 80 era preciso ser líder de massas para ter expressão pública no PT. A partir de 94 não houve mais esta necessidade e identidade. Muitos dirigentes passaram a ter sua legitimidade centrada na burocracia partidária, na vida parlamentar, nos cargos da administração pública, mas não mais em movimentos e representação de massas.
E, por esta breve leitura da trajetória do partido podemos indicar a hipótese que o PT viverá, a partir de 2011, uma profunda encruzilhada. Se continuar adotando a atual via do estatal-desenvolvimentismo, tutelando a sociedade civil, ou seja, completando a modernização conservadora iniciada por Vargas, estará fadado a continuar falando para a classe média emergente, a maior porção do eleitorado brasileiro. E esta nova classe média é profundamente conservadora e pragmática. Se Dilma Rousseff vencer as eleições de outubro e resolver romper com esta lógica, poderá bloquear o diálogo fácil com esta nova classe emergente que, hoje, compõe a maior fatia do eleitorado brasileiro. A ruptura com a imagem de Lula será visível. E provocará uma profunda crise de representação partidária que será testada em 2011, em plenas eleições municipais. O dilema da esquerda permanecerá.
A questão posta pelo lulismo é como romper com sua poderosa e pragmática lógica e retornar à utopia da esquerda democrática, sem se tornar elitista. O PT estará nesta encruzilhada posta por estas duas referências: o lulismo ou o elitismo. A maior possibilidade será a de um lulismo com Lula nas sombras. Talvez nem tanto na sombra como se imagina. Lula deitou raízes na sociedade e no sistema partidário. Está enviando a Consolidação das Leis Sociais ao congresso. Não se trata de um trocadilho. Getúlio Vargas não estava no governo e foi carregado por muitas forças partidárias (incluindo o PCB, perseguido ferozmente por sua ditadura), de volta ao trono. O lulismo tem cheiro de queremismo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A burocracia petista, por Merval Pereira de hoje

Fonte: Jornal O Globo - 23/02/10

A burocracia petista
Merval Pereira

A ascensão de Dilma, imposta por Lula e capitaneada por Marco Aurélio Garcia, seria a afirmação de um fenômeno que vem ocorrendo desde os anos 1990: a substituição da liderança política e eleitoral pela burocracia partidária. Essa imposição de uma tendência que vinha se desenhando teria sido beneficiada pela crise política que atingiu as principais lideranças partidárias em 2005, com o escândalo do mensalão, e pode fazer com que o partido venha a ter mais poder de pressão do que sempre teve sob o governo de Lula. O cientista político Nelson Paes Leme considera o fato "significativo e inusitado" e receia que possamos ter em nossa história republicana, aí incluídos os dois grandes períodos autoritários do Estado Novo e do Golpe de 64/84, "pela primeira vez na Presidência da República, uma burocracia partidária, de viés socialista mais à esquerda, norteando os destinos do país. A classe política não está refletindo sobre o inusitado fenômeno".
O sociólogo Rudá Ricci, do Fórum Brasil do Orçamento, que reúne entidades da sociedade civil na defesa das políticas sociais no Orçamento Público Federal, diz que o PT "foi capturado por um grupo político que reúne exmilitantes de esquerda organizada oriundos do PCB e dirigentes sindicais metalúrgicos e bancários, o setor mais controlador e autoritário do sindicalismo brasileiro".
Exemplares desse grupo são os recentes presidentes do PT, Ricardo Berzoini e José Roberto Dutra. Berzoini, vindo do Sindicato dos Bancários de São Paulo, só se elegeu deputado federal pela primeira vez em 1998. Já José Eduardo Dutra foi presidente do Sindicato dos Mineiros do Estado de Sergipe (Sindimina) e dirigente nacional da Central Única dos Trabalhadores. Perdeu duas vezes a eleição para o governo de Sergipe, e entre as duas tentativas foi eleito senador. A última derrota, em 2006, levou-o à presidência da Petrobras. Na análise do sociólogo mineiro, as tendências que ainda hoje compõem o PT poderiam ter dado origem a um partido de quadros, mas isto não ocorreu. "Elas foram absolutamente superadas e alijadas pela opção eleitoral da direção do partido".
Esta cúpula, segundo Ricci, adotou "práticas estranhas à origem do partido, deixou de lado a utopia que gerava energia à militância e agiu de maneira rebaixada, pragmática, focada na vitória a qualquer custo". Ele ressalta que nos anos 1980 era preciso ser líder de massas para ter expressão pública no PT. "A partir de 94 não houve mais esta necessidade e identidade. Muitos dirigentes passaram a ter sua legitimidade centrada na burocracia partidária e não em movimentos e representação de massas.
Hoje, muitos dirigentes nem reflexo da burocracia partidária o são. Vários são apenas parlamentares de expressão regional". O cientista político Nelson Paes Leme, depois de lembrar o fracasso da experiência soviética, diz que o aparelhamento do Estado pelo PT "tenderá a recrudescer com o fenômeno".
Abro um parênteses no pensamento de Nelson Paes Leme para ressaltar que mais uma vez a ministra Dilma cometeu um ato falho em seu discurso. Em Copenhague, na reunião do clima, já havia dito que o meio ambiente é prejudicial ao desenvolvimento. Agora, prometeu continuar "o reaparelhamento do Estado", quando seu discurso defendia a "reconstrução" do Estado. Para Paes Leme, quando Dilma e Marco Aurélio Garcia, seu principal coordenador de campanha e mentor, "falam no fortalecimento do Estado, estão falando para esse público interno da burocracia partidária onde ambos têm origem".
Chama a atenção do cientista político que tanto Dilma quanto Marco Aurélio Garcia, "burocratas de partido que nunca se submeteram a voto popular", poderão estar a partir da eleição deste ano "no poder central como novas lideranças, ditando novas diretrizes de política interna e externa do país".
Para Nelson Paes Leme, o inusitado historicamente é exatamente a submissão das correntes com mandato à força da burocracia partidária emergente dentro do partido e do poder central da República. Rudá Ricci, por sua vez, separa a direção partidária em três grupos: a) os que são tipicamente burocratas partidários; b) os indicados por correntes internas; c) os parlamentares.
"Neste último grupo, há casos do que denominamos na ciência política de 'representantes delegados' (termo utilizado por Bobbio). São representantes exclusivos de uma categoria social ou territorial".
No caso, metalúrgicos, bancários, professores e ruralistas formam, para Ricci, um conjunto que ilustra esta situação: foram sindicalistas antes de parlamentares. Mas ele destaca que "há casos petistas de parlamentares que se fizeram a partir da burocracia partidária, como o de Zé Dirceu", hoje o mais importante líder petista, de volta ao Diretório Nacional do partido e na coordenação da campanha de Dilma Rousseff. Rudá Ricci o considera "um típico representante do controle partidário dos anos1990. Este é o tipo novo de representação que rompe com aquela dos anos 80,
lideranças petistas que eram lideranças de movimentos de massa". Gestada na burocracia partidária e sem um histórico petista que imponha sua vontade ao partido, a candidatura Dilma estaria em um dilema: ao mesmo tempo em que é a candidata do lulismo para continuar seu governo pragmático e aliancista, Dilma teria que pagar um tributo ao petismo, que seria uma guinada à esquerda que já está se verificando na teoria do programa de governo oferecido pelo partido à candidata.

Serra bateu no teto?


Lucio Hippolito, no seu blog, analisa:
Estacionado nas pesquisas em 35%, pouco mais ou pouco menos, Serra desperta suspeitas, até entre tucanos de alta plumagem, de que tenha atingido seu teto. Se Dilma continuar em tendência de alta, as coisas podem ficar feias.

Trata-se da analista de política da Globo. O interessante era que muitos analistas diziam (e dizem) isto de Dilma, ou seja, que estacionaria nos 35%. Mas é Serra que estaciona. É verdade que muitos dirão que Dilma faz campanha e Serra se cala. Mas este é o problema: por que Serra se cala e placidamente assiste a subida da sua adversária?

Um alívio para o DEM

Com o efeito suspensivo emitido pela Justiça Eleitoral em relação à cassação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e sua vice, Alda Marco Antonio (PMDB), os democratas, finalmente, têm uma noite mais tranquila. Venho analisando o quanto os partidos de direita não conseguem refletir minimamente o pensamento conservador do nosso país. Obviamente que os dirigentes de partidos mais à esquerda festejam. Mas é falta de leitura política. A direita ausente no sistema partidário não significa que não existe no país. E é muito melhor enfrentar politicamente (e não administrativamente, como vem ocorrendo com o DEM) e vencer que não enfrentar.
Do ponto de vista do amadurecimento da democracia, é muito importante que tenhamos partidos que ao menos expressem esta vertente (mesmo os partidos, reafirmo, serem estruturas anacrônicas de representação). Um dos motivos mais importantes é a necessidade do embate entre partidos ser pedagógico para a população. Ela pode se espelhar melhor ao ouvir argumentos de parte a parte. Um segundo motivo é que a cultura política brasileira é conservadora. Sem a direita organizada em partido, a tendência é que a esquerda hegemônica ocupe, aos poucos, este espaço "vazio", por pura tentação de ser monolítica. A entrevista de Fernando Pimentel na Folha da segunda-feira (ver nota abaixo) é exemplo deste movimento. Um péssimo sinal para a democracia brasileira, porque dá lugar ao pensamento único.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A voz do burocratismo petista, na Folha de hoje


A entrevista de Fernando Pimentel na Folha de São Paulo de hoje (A14) é um retrato fidedigno do perfil desta nova liderança: burocrática, previsível, sem emoção, calculista.
Vou comentar algumas de suas pérolas:
1) "Dilma não ficará refém do PT". O que se discute é ela ser refém de Lula e do lulismo. Quem, hoje, é refém do PT? Obviamente que as correntes internas procuram se impor. Mas temos um bom teste neste momento: vejamos se as propostas aprovadas no 4o Congresso se transformarão em programa de governo de Dilma;
2) "O PT não pode ser a política no sentido de 30 anos atrás, quando fundamos o PT". Ele sugere que seja o partido da nova classe média. Ora, esta é a tese do lulismo. Ou seja: repete o que já existe. É como sugerir que o mundo se transforme no que já é. O interessante é que procura dar ares de autoridade e elaboração política. Para tanto, tenta desqualificar quem critica esta inflexão radical do petismo como se fosse passado;
3) "Acho o artigo do (André) Singer extremamente bem posto, mas prematuro". Se é bem posto não é prematuro; ou se é prematuro, não está posto. Típico discurso anódino, que procura manter a polidez na forma e a rejeição no conteúdo.

Uma entrevista que marca claramente o quanto as lideranças petistas mudaram.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Almoço de Guido, Delfim e Belluzzo (segundo Paulo Moreira Leite)


Guido, Delfim e Belluzzo nunca foram admiradores de um real forte em relação ao dólar, e acreditam que a alta recente da moeda americana pode ser benéfica ao país, na medida em que protege a industria, ajuda a criar empregos e melhora o balanço de pagamentos. Embora considerem que o patamar atual das reservas, na casa de US$ 240 bilhões de dólares, represente uma boa proteção contra turbulências externas, eles concluiram que o governo deverá assumir um papel mais ativo na administração do cambio, para evitar surpresas desagradáveis.

Uma ótima do Luis Fernando Veríssimo

Numa eventual guerra entre homens e mulheres pela dominação do mundo servirei ao meu sexo nem que seja como espião nos vestiários do inimigo

Nem os ministros gostaram dos vídeos e músicas de lançamento da Dilma

Kennedy Alencar comenta:
"Duda Mendonça faz falta", disse um ministro, ao comentar vídeos e músicas do lançamento da pré-candidatura de Dilma

Negociação dura entre Lula e o PMDB

Recebo informação que nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarian, Paraná, Sãoi Paulo, Mato Grosso do Sul e Piauí o PMDB defende candidatura própria. Em Pernambuco é contra aliança nacional com o PT.

As responsabilidades de um país potência


Alguns jornalistas procuram ridicularizar a projeção internacional do Brasil (como já fizeram com o vaticínio de Lula que a crise internacional seria uma marola no Brasil). Mas os fatos vão se avolumando nesta direção. Veja esta:
Cinquenta presos políticos cubanos, integrantes do grupo dos 75, condenados em 2003, pediram neste domingo ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que interceda por sua libertação, durante a visita que realizará na próxima semana à Ilha. "Ao sabermos de sua próxima visita a Cuba (...) dirigimo-nos ao Senhor para solicitar que, nas conversações mantidas com os máximos representantes do governo cubano, contemple nossa situação" e "advogue por nossa libertação", pedem a Lula os presos políticos, em carta divulgada em Havana. Solicitam, ainda, que "se interesse pelo prisioneiro de consciência Miguel Zapata Tamayo, que realiza desde dezembro uma greve de fome" e "apresenta, hoje, má condição de saúde".
No documento, assinado por 50 dos 75 dissidentes condenados a penas de até 28 anos de cárcere - 53 ainda permanecem na prisão - dizem que Lula "seria um magnífico interlocutor para defender junto ao governo cubano a realização de reformas nos setores econômico, político e social, exigidas com urgência".

É uma nítida mudança de posicionamento. E não se trata do primeiro contato de Lula com os dirigentes cubanos.

O debate sobre o futuro do PT na Globo News


Para quem desejar assistir o Painel (Globo News) sobre o futuro do PT em que participei, clique aqui

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Kassab cassado

A Justiça Eleitoral condenou o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), à perda do mandato pelo suposto recebimento de doações ilegais na campanha de 2008. A decisão deve ser publicada no "Diário Oficial" na próxima terça-feira, é o que informa a reportagem de Flávio Ferreira e Fernando Barros de Mello, publicada na edição deste domingo da Folha de S.Paulo, que já está nas bancas. Em nota, a defesa do prefeito diz que as contas "foram analisadas e aprovadas sem ressalvas pela Justiça Eleitoral" e que a tese da sentença já foi vencida no TSE. Os advogados vão recorrer.

Lula tem razão: na política é preciso ter sorte. Mas vai ter sorte assim...

Congresso Internacional sobre Participação em Rosário, Argentina

Congresso Internacional Aprofundando a democracia como forma de vida. Desafios da democracia participativa e aprendizado cidadão no século XXI.
Ocorrerá de 13 a 16 de maio, em Rosário, Argentina. Está sendo organizado pela Facultad de Ciencia Política y Relaciones Internacionales, Universidad Nacional de Rosario.
Os organizadores destacam os objetivos do evento:
Em tempos de grandes transformações globais, convidamos todos a compartilhar experiências e reflexão critica que abram caminhos para responder as seguintes perguntas: considerando que nos últimos dois séculos lutamos para institucionalizar direitos civis, políticos e sociais, faremos do século XXI o século do aprofundamento e da proliferação da democracia como forma de vida? Como podemos fazê-lo?

Para os interessados, veja aqui

V Fórum Urbano Mundial acontece no RJ

A ONU-Habitat realiza o V Fórum Urbano Mundial, principal evento de urbanismo do mundo, entre 22 e 26 de março de 2010, nos armazéns da zona portuária do Rio de Janeiro. Para quem deseja saber mais, veja aqui

OP em Portugal

Recebo de Nelson Dias, de Portugal, a seguinte mensagem a respeito do orçamento participativo em seu país:
É evidente que o Brasil continua a ser uma fonte inspiradora para muitos activistas sociais do continente europeu e em participar de Portugal. Por cá optamos por nos inspirar nas práticas brasileiras, fazendo a sua tradução cultural no nosso
contexto, de forma a podermos trabalhar com os actores políticos que normalmente manifestam desconfiança face ao que se passa desse lado do Atlântico. É, em grande medida, esse trabalho de tradução cultural que está na origem da transposição para a Europa de práticas como OP originárias da América Latina. Essa transposição implicou mudanças e adaptações aos modelos originais, tendo em muitas circunstâncias dado origem a práticas nem sempre consistentes do ponto de vista político e metodológico.
A Europa está a "despertar" para as práticas de participação, tendo por base padrões de qualidade de vida e de consolidação do sistema político diferentes dos da América Latina. Este elemento faz toda a diferença no desenho final assumido pelos processos de participação - menos orientados para diminuição das assimetrias sociais e territoriais e mais orientado para recriar laços de confiança entre políticos e cidadãos. Estamos numa fase de abertura para este tipo de processos. Desta fase podemos ter duas saídas possíveis:
a) a banalização da participação e o esvaziar dos seus conteúdos políticos, metodológicos e sociais, ou
b) a sua consolidação e integração progressiva nas práticas governativas, podendo
mesmo assumir um corpo legislativo próprio.

Sobre o Lulismo (entrevista ao Brasil de Fato)


O jornal Brasil de Fato me enviou algumas perguntas sobre o futuro do PT. Reproduzo, abaixo, a entrevista:

P: Na sua opinião, em 1980, o petismo acreditava que o partido tornaria-se o mais importante do país em 30 anos. Se sim, imaginava que seria dessa forma?
R: O PT não é o mais importante partido do país. Este posto pertence ao PMDB (em número de parlamentares, prefeitos, total de votos). Mas o lulismo é maior que o PT. O lulismo é uma concepção de gestão política e do Estado que inverteu absolutamente o ideário petista. O PT, por seu turno, se "americanizou", ou seja, forjou-se como uma grande máquina eleitoral, ao estilo dos partidos Democrata e Republicano. Obviamente que há resistências internas. Mas as correntes internas contam muito pouco
para a prática do PT.

P: Nas primeiras eleições do PT, a sigla tinha boa representatividade em setores médios, mas pouca simpatia nas classes mais pobres. À época, os dirigentes petistas falavam da necessidade de ampliar a base eleitoral nos mais pobres, por meio de um trabalho de base que aflorescesse a consciência de classe. Hoje o PT tem seu êxito eleitoral nas classes mais baixas e é rejeitado pelos setores médios. O processo ocorreu da maneira que o petismo esperava?
R: Novamente esta mudança da base eleitoral do PT é um mero reflexo do lulismo. Não é mérito do partido. A sua questão é das mais instigantes. Trata-se de um dilema antigo da esquerda brasileira: a de se tornar popular sem perder o ideário de esquerda. Este é um dilema enfrentado desde a fundação do PCB, na década de 20. A esquerda brasileira têm profundas dificuldades para se tornar popular em virtude do lastro teórico de origem européia. Tivemos autores que tentaram criar um pensamento
genuinamente brasileiro, como Caio Prado Jr, para citar apenas um. Mas pensar o Brasil não é tarefa fácil, porque multifacetado e corroído por uma cultura moralista e conservadora. O lulismo dialoga diretamente com esta cultura popular, complexa e conservadora. Fala para a classe média emergente, que desconfia da política mas é extremamente pragmática. Mas não dialoga pedagogicamente, procurando enfrentar o conservadorismo. Seu diálogo é rebaixado, procurando a identidade permanente. Daí, perdeu toda inspiração de um projeto de esquerda. O lulismo é social-liberal. Por este motivo, o PT se tornou figura menor. O petismo não se tornou popular. Em contraste com o lulismo, sua imagem pública se tornou carrancuda e, para a grande imprensa, oportunista. Trata-se de um dilema antigo da esquerda brasileira: como ser popular e de esquerda.

P: De que formas essa composição do PT, como um partido de tendências, contribuiu para ditar os rumos do partido? Essa lógica das tendências ainda persiste?
R: As tendências poderiam ter dado origem a um partido de quadros, mas isto não ocorreu. E este é o principal sintoma que as tendências não ditaram efetivamente os rumos da expressão pública do partido. As tendências foram absolutamente superadas e alijadas pela opção eleitoral da direção do partidos. O PT tem dois momentos muito distintos em sua história. Nos anos 80 foi um partido de massas porque abraçou a lógica e ideário dos movimentos sociais daquele período, marcado pela democracia
direta, o anti-institucionalismo, o anti-capitalismo, o participacionismo e o comunitarismo cristão. Mas em meados dos anos 90, foi capturado por um grupo político muito menos público que as tendências e correntes petistas. Ex-militantes de esquerda organizada oriundas do PCB e dirigentes sindicais metalúrgicos e bancários, o setor mais controlador e autoritário do sindicalismo brasileiro. Esta cúpula adotou práticas estranhas à origem do partido, deixaram de lado a utopia que gerava energia à militância e agiram de maneira rebaixada, pragmática, focada na vitória a qualquer custo. Veja que nos anos 80 era preciso ser líder de massas para ter expressão pública no PT. A partir de 94 não houve mais esta necessidade e
identidade. Muitos dirigentes passaram a ter sua legitimidade centrada na burocracia partidária e não em movimentos e representação de massas. Hoje, muitos dirigentes nem reflexo da burocracia partidária o são. Vários são apenas parlamentares de expressão regional.

P: Qual é a perspectiva da atuação do PT no pós-Lula? O eventual governo de Dilma Roussef reuniria condições, na sua opinião, de postar-se mais à esquerda, como sugere a mídia corporativa?
R: O PT viverá uma profunda encruzilhada. Se continuar adotando a atual via do estatal-desenvolvimentismo, tutelando a sociedade civil, ou seja, completando a modernização conservadora iniciada por Vargas, estará fadado a continuar falando para a classe média emergente, a maior porção do eleitorado brasileiro. E esta nova classe média é profundamente conservadora e pragmática. Se Dilma resolver romper com esta lógica, poderá bloquear o diálogo fácil com esta nova classe emergente. A ruptura com a imagem de Lula será visível. E provocará uma profunda crise de
representação partidária que será testada em 2010, em plenas eleições municipais. O dilema da esquerda permanecerá. A questão posta pelo lulismo é como romper com sua poderosa e pragmática lógica e retornar à utopia da esquerda democrática, sem se tornar elitista. O PT estará nesta encruzilhada posta por estas duas referências: o lulismo ou o elitismo. Não vejo em Dilma capacidade intelectual e de liderança para romper com estes extremos e recriar um ideário de esquerda e de massas que o PT dos
anos 80 projetava.

P: O senhor acredita na tese de que o Brasil pode viver nos próximos anos um "lulismo sem Lula"?
R: A maior possibilidade será a de um lulismo com Lula nas sombras. Talvez nem tanto na sombra como se imagina. Lula deitou raízes na sociedade e no sistema partidário. Está enviando a Consolidação das Leis Sociais ao congresso. Getúlio Vargas não estava no governo e foi carregado por muitas forças partidárias (incluindo o PCB, perseguido ferozmente por sua ditadura), de volta ao trono. O lulismo tem cheiro de queremismo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um sake fantástico no Kinoshita


Aproveitei que cheguei em São Paulo na hora do almoço para passar no Kinoshita, o badalado restaurante do chef Tsuyoshi Murakami. E como das outras vezes, fui apresentado para um sake especial: o Nambu Bijin ("Nigon"). Um sake frutado, não pasteurizado (possui um resíduo no fundo da garrafa assim como algumas cervejas alemãs, deixando o líquido mais turvo). Vale a pena.
O endereço do Kinoshita é:
Rua Jacques Félix, 405 - Vila Nova Conceição

O endereço para quem desejar adquirir o sake é:
Adega do Sake (Rua Galvão Bueno, Liberdade). Web Site: www.adegadesake.com

Painel Globo News foi bem polêmico

Gravei, hoje, programa Painel (da Globo News), onde debati com Ricardo Antunes (Unicamp) e Maria Aparecida Aquino (USP) o petismo e o lulismo. Debatemos a mudança e trajetória do PT e da CUT, a transformação dos movimentos, o lulismo tendo a nova classe média como base social, o lulismo como neogetulismo (não aceito por Maria Aparecida), os dilemas do PT sem Lula na Presidência da República e da esquerda brasileira (o dilme de ser popular e se distanciar do ideário original).

Congresso do PT é para consumo interno e não para PMDB

Ao menos é isto que está parecendo. As notícias são:
a) O presidente do PMDB, Michel Temer (SP), recusou um convite do presidente do PT, José Eduardo Dutra, para aparecer no 4º Congresso Nacional do PT.

b) Temer disse a Dutra que não poderia ir porque pode parecer que a chapa PT-PMDB já estava montada, com ele como vice da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

c) Os 1.300 delegados do 4º Congresso Nacional do PT rejeitaram em peso uma menção explícita ao PMDB na resolução sobre estratégia eleitoral e política de alianças para a campanha de Dilma Rousseff.

d) A proposta, que partiu de parte do grupo majoritário formada por setores da corrente Construindo um Novo Brasil e Novos Rumos, previa uma mudança no texto base, que fala apenas na prioridade em "fortalecer um bloco de esquerda e progressista" e "agregar forças políticas de centro". Não há menção direta ao PMDB nem qualquer outro partido aliado.

e) Com o objetivo de fazer um afago no PMDB depois de uma série de trombadas quanto a questões estaduais e à escolha do vice de Dilma, queriam aprovar uma emenda alterando o texto para: "manter a coesão das forças políticas, econômicas e sociais que integram a atual base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, particularmente o PMDB".

f) A emenda foi defendida no plenário pelos deputados José Genoino e Carlos Zaratini. Mas o presidente do partido, Ricardo Berzoini, conseguiu reverter a situação ao defender a manutenção do texto base. Ele argumentou que o texto não deveria fazer menção direta a qualquer partido. O PT não quer melindrar outros aliados como o PSB, do deputado Ciro Gomes.

Eleição 2010: a disputa pela interpretação dos números


A campanha pela sucessão de Lula está tão desorganizada que agora chegamos ao absurdo de reeditar os números de pesquisas. O jogo de cena chega a ser imoral, revelando um profundo desrespeito ao cidadão. Este é o caso da interpretação dos resultados da última pesquisa IBOPE. Se compararmos a pesquisa anterior do IBOPE com a divulgada nesta semana, a diferença entre Serra e Dilma caiu significativamente. Mas comparando com a pesquisa Sensus/CNT (que indicou empate técnico entre os dois) a diferença é maior. Este fato levaria, de cara, a se questionar a metodologia de um e outro instituto de pesquisa. Mas o que fizeram alguns editores da grande imprensa? Compararam o resultado das duas pesquisas (IBOPE e Sensus) e tiraram as conclusões de baixa qualidade intelectual: "Dilma e Serra estagnaram", "Serra mantém diferença", e assim por diante. Em nenhuma das pesquisas é possível tirar tais conclusões.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Globo News Painel debate congresso do PT


Participo amanhã, na Globo News, do programa Painel, tendo como tema o congresso do PT que termina no final desta semana. O programa vai ao ar ao sábado, às 23h e é reprisado no domingo (03h05, 11h05, 20h05) e segunda-feira (05h05).
Participa, também, o sociólogo Ricardo Antunes.

Tom Zé: o melhor blog do Brasil


Descobri que Tom Zé tinha blog lendo O Glob de hoje. E não deu outra: é, na minha opinião, o blog que melhor sabe utilizar este instrumento. Tom Zé dá um show de comunicação e simplicidade. O expediente é o de uma conversa entre amigos: ele lança idéias e desafios, conversa com quem comenta, dá conselhos e opiniões, enfim, faz o papel daqueles mediadores de grupos focais. O cara é genial. Vá lá e confira: aqui .

Belo artigo no Valor Econômico

Uma opção radical... pelo centro ideológico
Maria Inês Nassif
Basta um pouco de bom senso para rejeitar a ideia que se tenta impor, como senso comum, de que o governo Lula deu um passo à esquerda e que a ministra Dilma Rousseff dará a guinada final em direção a alguma coisa parecida com o ex-socialismo soviético, um capítulo arquivado da história que poucos líderes e partidos no mundo tentam ressuscitar. A chance de radicalização à esquerda numa coalizão como a que dá sustentação ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva - e dará apoio a um governo Dilma, se o PMDB oficialmente apoiar a sua candidatura e se ela vencer a eleição - é quase próxima a zero. O debate sobre o tamanho e o poder de intervenção do Estado, que se tornou central depois da crise financeira mundial do ano passado, está sendo feito no interior do capitalismo e não é determinante para se apontar o grau de esquerdização de um candidato, de um governo ou de um partido. O PT não está radicalmente ao centro como quando assumiu o governo, em 2003, mas as alianças feitas para ganhar eleição e governar não autorizam previsões de que o partido caminha inexoravelmente para a extrema-esquerda. Nenhuma tendência de esquerda do PT alimenta essa fantasia porque ela simplesmente não é razoável.
No primeiro governo de Lula, de 2003 a 2005, a gestão foi o produto de um "pacto de governabilidade" que impediu qualquer passo à esquerda, exceto uma política de transferência de renda que inicialmente soou apenas como política compensatória. Aliás, o Bolsa Família só ganhou corpo e se expandiu sem enfrentar uma forte oposição conservadora porque não esteve no centro das atenções até ter se consolidado como instrumento efetivo de distribuição de renda.
Daí foi impossível acabar com o programa.
No pós-eleições de 2002, o grupo de centro era amplamente hegemônico no PT e estava totalmente comprometido com a tarefa de mostrar ao mercado que seu governo era confiável, numa conjuntura de grave crise econômica e fuga de capitais. Não existia espaço para debates à esquerda. Esse partido que se fincava no centro era aliado, no governo, a outras pequenas agremiações à esquerda e à direita - era inevitável que o ponto de equilíbrio fosse o centro, com concessões eventuais à direita e à esquerda.
No segundo mandato, se a reeleição deu alguma sustentação ao presidente Lula para fazer uma inflexão à esquerda - quer como resposta à radicalização da oposição à direita, quer pelo fato de ter sido consagrado por uma população de baixa renda que é altamente penalizada em conjunturas de políticas econômicas conservadoras -, a aliança com o PMDB, que aderiu ao governo depois das eleições de 2006, colocou limites muito precisos a isso. O segundo governo Lula foi à esquerda do primeiro, mas nem tanto. O PMDB é um partido que, na sua trajetória pós-redemocratização, perdeu qualquer referência de esquerda e abriga bolsões ultraconservadores - a maior parte da bancada ruralista, a mais ativa oposição a qualquer política fundiária de qualquer governo, está abrigada naquele partido; lá se acomodam as principais lideranças regionais estaduais mais apegadas a antigas práticas de clientelismo. Os setores mais conservadores do PMDB tiveram protagonismo nas questões fundiárias - o ministro pemedebista Reinholds Stephanes (PMDB-PR) tem maior poder de influência do que Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário e integrante da esquerda do PT; Stephanes tem ganhado também as quedas de braço com o Meio Ambiente. O PMDB também foi a referência conservadora na disputa entre o Ministério da Defesa e a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), na questão da criação de uma Comissão da Verdade destinada a apurar excessos cometidos pelo aparelho de repressão do Estado.
O PMDB é o parceiro eleitoral que o PT quer e o governo e o partido têm feito todos os esforços para ter um pemedebista como vice na chapa encabeçada por Dilma Rousseff. Não existe razão alguma para imaginar que, se o PT vencer em outubro, um governo de Dilma terá enormes diferenças em relação ao seu antecessor. O PMDB se beneficia eleitoralmente de medidas populares de esquerda do governo Lula, mas os setores mais conservadores do partido estabelecem limites muito claros, que são os seus interesses. Existe uma certa organicidade nessa agremiação de centro partida em pedaços, que é a consciência de que a defesa dos interesses de grupos cimentam a unidade que dá a ela poder de barganha junto a qualquer governo. Como é uma grande agremiação, com grande peso no Congresso, isso tem muita importância na definição ideológica de um governo ao qual está aliado.
Internamente, o PT também tem maiorias consolidadas que por si só mantêm o partido longe dos discursos de ruptura do passado. A queda do Muro de Berlim, há 20 anos, foi um baque para todos os partidos de esquerda no mundo. Muito antes disso, a denúncia dos crimes de Joseph Stálin, em 1956, pelo governo soviético de Nikita Kruschev, já havia colocado a questão democrática no centro dos debates da esquerda mundial. O fracasso da esquerda armada no Brasil e na América Latina, e a vitória de brutais regimes militares de direita que praticamente dizimaram esses grupos revolucionários, são dados que se somaram e solidificaram um processo contínuo de aproximação das esquerdas brasileiras da ideia de socialismo democrático. Quando a democracia passou a ser o instrumento fundamental de formação de hegemonias para esses grupos, logicamente o limite de radicalização à esquerda fica muito claro, independentemente das alianças na política institucional que um partido que se diga socialista faça. Como toda essa água rolou desde que a UDN e os militares udenistas tomaram o poder pela força em 1964, com a justificativa de evitar que a esquerda fizesse uma revolução pela força, o discurso eleitoral que atribui a qualquer partido de esquerda hoje situado na política institucional brasileira intenções de ruptura é, no mínimo, fora de moda; no máximo, terrorismo político-eleitoral.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

Abandono do Zoo de Belo Horizonte


O Zoo de BH está abandonado. É um problema cíclico. A maioria das placas com nome e informações sobre cada animal está desbotada e há casos de ser apenas um plástico, rasgado e caído, sem que se possa ler. A grama está alta em todo zoológico. Os funcionários não conseguem esconder a irritação. Grande parte das jaulas e cercas estão enferrujadas. E paga-se a bagatela de 7 reais, por pessoa, nos feriados. Fora o valor por carro (adicional). Ou seja, uma família com 4 pessoas paga quase 30 reais para entrar. No feriado de carnaval, estava lotado. Mesmo assim, era evidente o descaso, o desrespeito e a anti-educação.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Pesquisa IBOPE

Do site do Estadão:
Pesquisa Ibope/Diário do Comércio, encomendada pela Associação Comercial de São Paulo e realizada entre os dias 6 a 9 deste mês, indica que a corrida à sucessão presidencial de outubro continua polarizada pelos pré-candidatos do PSDB e do PT, respectivamente o governador de São Paulo, José Serra, e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Nessa mostra, Serra tem 36% das intenções de voto e Dilma 25%. Em terceiro lugar está o deputado federal Ciro Gomes (PSB) com 11%, seguido da senadora Marina Silva (PV) com 8%. O porcentual de votos brancos e nulos somou 11% e dos que disseram não saber em quem vai votar atingiu 9%.
A última pesquisa divulgada pelo Ibope foi no dia 7 de dezembro do ano passado. Na mostra, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Serra registrava 38% das intenções de voto, seguido de Dilma Rousseff com 17%, Ciro Gomes com 13% e Marina Silva com 6%. Naquela pesquisa, o porcentual de votos brancos e nulos atingiu 13% e dos que disseram não saber em quem votar ou não quiseram responder somou 12%.
A mostra indagou ainda o que os eleitores gostariam que o próximo presidente fizesse. Do total de entrevistados, 34% querem a total continuidade do atual governo, 29% querem pequenas mudanças com continuidade, 25% querem a manutenção de apenas alguns programas com muitas mudanças e 10% querem a mudança total do governo do País. Para 78% dos entrevistados, o presidente Lula é confiável, enquanto 18% disseram não confiar no presidente.

PSDB perde filiados em MG na Era Aécio


O estilo autosuficiente de governar de Aécio Neves criou um rombo no seu partido. Somente em 2009, mais de 5 mil pessoas se desfiliaram do PSDB mineiro. O partido de Aécio se tornou a quarta legenda mineira (9,8% do total de filiados a partidos no Estado), perdendo para PMDB, PT e DEM.
Do total de 300 vereadores cassados em 2008, PMDB e PSDB lideram o ranking, com 36 parlamentares cada. Nenhum partido de oposição a Aécio teve parlamentar cassado. Dentre os grandes partidos, PT foi o que menos perdeu filiados entre 2006 e 2009.
São dados apresentados na edição de hoje do jornal Hoje em Dia, p. 3.
O presidente do PSDB mineiro afirma que houve descontentamento com os políticos e que houve falta de mobilização das lideranças partidárias.
O poder e a militância do contra-cheque geram problemas desta natureza.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Falecimento de Gildo Marçal Brandão


Recebo mensagem do professor José de Souza Martins comunicando o falecimento de Gildo Marçal Brandão, professor do Departamento de Ciência Política e coordenador científico do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Democratização e Desenvolvimento, da Universidade de São Paulo. Reproduzo o início de um simpático artigo que ele escreveu quando do aniversário do CEDEC, centro de estudos sociológicos que tive o prazer de ter sido membro:

Idéias e Intelectuais: modos de usar
Relutei quando Amélia Cohn me convidou para tomar parte nesse evento em torno do aniversário do Cedec. Pois não se trata de um aniversariante qualquer. Com efeito, em um país onde as instituições costumam durar o tempo de interesse de seus fundadores, quantas podem comemorar 25 anos? Em um país que tem sido submetido a mudanças aceleradas em concentrado período de tempo, quantas instituições universitárias deixaram marca no debate público? Em um país no qual a vida acadêmica tem se confrontado com tanta burocracia e risco de taylorização, quantas instituições de pesquisa conseguiram renovar o seu projeto? Em um país em que as transformações ideológicas e as trocas de campo político foram tão generalizadas e intensas, quantas instituições intelectuais foram capazes de reafirmar seu compromisso de nascença com a esquerda, e de rejuvenescê-lo?
(...)
Se minha periodização não é simplificadora, diria que a radicalização da crise na virada dos anos 90 provocou uma reação de autodefesa e distanciamento da práxis anterior, logo traduzida no esforço de incorporação dos problemas e das formas de abordagem da ciência política institucionalizada e na reflexão crítica sobre a situação e as políticas sociais implementadas pela nova democracia. O acento aqui se deslocou da “política instituinte” - um termo originário da filosofia política francesa e que denotava o horror à positividade - para os processos de construção institucional em que o país e a América Latina mergulhavam. Mas, mesmo nessa fase, permaneceu a ponta de desconfiança tanto diante do Estado como em relação a uma perspectiva estritamente maquiaveliana da política, como se o Cedec, reconhecendo malgré tout a centralidade da ética da responsabilidade, insistisse sempre no elemento de convicção, com receio de que o cálculo racional das conseqüências da ação derivasse em mero instrumentalismo e que o compromisso do ator com o caminho escolhido se reduzisse à mera accountability.
(...)
Na impossibilidade de aprofundar aqui esses argumentos, limito-me a assinalar sumariamente alguns de seus efeitos no modo pelo qual se vem analisando o Brasil. O primeiro é uma das conseqüências mais complicadas da transformação do intelectual em especialista, das ciências sociais em técnicas de racionalização das demandas sociais, do trabalho acadêmico em reprodução dos interesses e programas das agências estatais e financeiras. É que, por maior que seja sua dimensão democratizante comparada com o antigo mandarinato, a tecnificação da atividade intelectual e a fragmentação da pesquisa científica numa miríade de disciplinas e subdisciplinas fechadas e especializadas no exame de limitados objetos, acabam por bloquear a possibilidade de pensar o conjunto, reduzem a reflexão à expressão reificada do próprio processo social.(...)

Kassab e Arruda

Do blog de Josias de Souza:
Arruda ajudou a forrar, por exemplo, o caixa de campanha de Gilberto Kassab, o prefeito ‘demo’ reeleito em São Paulo.
Tenho a impressão que Serra não está gostando nada desta brincadeira.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Liberalismo ou regulação estatal no debate italiano


A crise internacional reabriu o debate europeu sobre o papel do Estado. Participo de uma lista de discussão entre italianos que vivem fora da Itália. Vejam a resposta de um italiano pró-regulação à provocação de outro, liberal:
"Perche' non privatizziamo la bandiera italiana? E ,ovviamente,le ambasciate ,l'esercito,etc.Possibile che qualcuno pensi di terziarizzare lo stato?.

Divertido, como todo debate entre italianos. Nunca havia pensado num debate nesses termos: privatizar a bandeira nacional e o exército!!! Escrevo dando gargalhadas. Lembra discussões na minha família.

O que está acontecendo com Aldo Rebelo?


O líder do PCdoB resolveu confrontar o Ministério do Meio Ambiente. Num debate realizado em Ribeirão Preto sobre o Código Florestal afirmou que membros do Ministério Público agem como "braços jurídicos das ONGs" ambientalistas. Aldo é o relator da comissão especial da Câmara dos Deputados que dará parecer ao projeto de lei nº 1.876, de 1999, propondo alterações na lei de proteção às florestas.
O que vem surpreendo é sua defesa de mudanças para beneficiar o agronegócio, tendo como motivação uma vaga defesa do crescimento da economia.
O que estaria ocorrendo? Conservadorismo saindo do armário, prenúncio de financiamento de campanha ou ingenuidade?
Chegou a afirmar no dia 2 de fevereiro:
O Brasil não pode mais uma vez atender aos interesses internacionais se comprometendo com reduções em Estocolmo.

Teses de Christian Mirza


O livro de Christian Adel Mirza, "Movimientos sociales y sistemas políticos en América Latina" (Clacso Libros) deveria ser mais citado e comentado no Brasil. Faz um importante cruzamento entre trajetória dos movimentos sociais contemporâneos e evolução dos sistemas partidários e políticos da região.
Não compartilho de muitas de suas teses, mas é uma obra realmente importante. No capítulo 3, sugere que há relação direta entre emergência dos movimentos sociais e a crise de legitimidade dos partidos latino-americanos. Também sugere, no início do livro, certa institucionalização dos movimentos sociais do continente e cita, inclusive, as centrais sindicais nesta categoria. São três teses que discordo frontalmente. Central sindical não é movimento social, embora mobilize socialmente. Por este motivo, não acredito que a institucionalização de movimentos sociais possa configurar novas formas de movimentos sociais. Sociologicamente teríamos que distinguir movimentos sociais de organizações (pela própria estrutura de organização e motivação interna, além do grau de universalização já que organizações são mais auto-referentes que movimentos sociais). Finalmente, o momento atual do Brasil seria, neste caso, uma exceção não explicada pela crise do sistema partidário e dos próprios movimentos sociais. A origem pode ter sido esta, mas a conjuntura atual sugere uma realidade muito mais complexa.

Beyoncé é a cara da nova classe média brasileira


O programa Sem Fronteiras (GloboNews) dedicou matéria sobre a nova classe média e começou mostrando o show de Beyoncé. Achei muito interessante porque esta imagem não é propriamente kitsch, embora tenha certo exagero. É mais para um pop que tem competência técnica. Algo bem diferente do que o imaginário da classe média tradicional tem dos emergentes.

Blog sobre Fórum Social Mundial

O IBASE criou blog onde disponibiliza textos e artigos focados no balanço de 10 anos do FSM. Também publica no espaço síntese de algumas mesas ocorridas no último fórum. Ver aqui .

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Lobisomem: complexo de édipo canino


Benicio Del Toro ao lado de Anthony Hopkins é garantia de qualidade e filme com sacadas cerebrais. Mas este é entretenimento puro, com adiamento de seu lançamento por dois anos para refilmar algumas passagens inicialmente reprovadas. Interessante (sem grandes brilhos), com toque psicanalítico, conflito pai-filho, insinuações de desejos incestuosos com cores, digamos, mais animalescas. No clima, o diretor Joe Johnston limitou os efeitos digitais aos pés do lobisomem-Benicio Del Toro.
Rubens Ewald Filho massacrou o filme:
O resultado é francamente medíocre, com determinadas pretensões de roteiro (obviamente freudiano) e que insiste numa moral de história que finge ser profunda (ou seja, que dentro de todo homem, está adormecida uma besta assassina).

Caramba! Acho que daí vem a noção de que fazer crítica é espinafrar o criticado.

MST perde fôlego


Dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) revelam que as ocupações de terra despencam desde 2007 (ver gráfico ilustrando este post). A CONTAG afirma que ainda existem 70 mil pessoas acampadas na beira de rodovias. Ok. Mas no final da primeira gestão de Lula eram 200 mil acampados.

Complicou tudo para os democratas


A UOL acaba de divulgar que a Polícia Federal apreendeu durante a Operação Caixa de Pandora recibos de doações ao DEM no anexo da residência oficial do governador afastado do Distrito Federal. Segundo a reportagem, os recibos estavam no armário que era usado por Domingos Lamoglia, ex-chefe de gabinete de Arruda, suspeito de arrecadar propina. A PF quer saber por que os documentos estavam no armário de Domingos quando deveriam ficar com os doadores.
O DEM vai passando por seu inferno astral, torcendo para não ser sinal de seu último suspiro. Deve confiar no desprezo tupiniquim pelo mundo político (que alguns acreditam que se trata de falta de memória).

Corrupção e família, em Carlos Fuentes


Em dias de prisão de governador, um conto do mexicano Carlos Fuentes é dos mais ilustrativos. Em "Uma família entre tantas", conta a história de um pai honesto que, aos 52 anos, procura seu chefe para reclamar o motivo por não receber nenhum benefício extra já que, ao contrário dos outros funcionários, é honesto e cumpre as ordens sem questionamento. O patrão lhe dá imediatamente 5 mil dólares e o demite. Com um sorriso sarcástico no rosto, diz ao empregado exemplar, que receberia um salário vitalício ou seria denunciado à polícia pelo desvio dos 5 mil dólares da empresa. O pai honesto reclama que não havia pedido o dinheiro, mas o patrão, ainda com o sorriso pregado no rosto, pede para ele provar, para apresentar o recibo inexistente.
Naquele momento, o pai honesto percebe que havia cometido um erro. Ao reclamar, se tornou um igual. Comenta, com o filho: "somos filhos de uma revolução infeliz". Ao que o filho pergunta: "qual revolução? a tecnológica?".

Comunitarismo em duas visões


Acabo de ler o livro de Thamy Pogrebinschi (professora da IUPERJ, que lançou recentemente o interessante livro "O Enigma do Político", em que retoma a relação Estado-sociedade civil em Marx) sobre Pragmatismo (Editora Relume Dumará). A autora trabalha vários conceitos em John Dewey, incluindo o de comunidade. Dewey fazia uma relação direta entre comunicação e comunidade, fazendo da segunda uma construção dinâmica e permanente. A identificação de cada um com a comunidade se forja nesta comunicação, se aproximando do conceito de hegemonia gramsciano. Trata-se de uma adesão consciente, portanto, não apenas marcada pela afetividade. Peirce, também citado pela autora, vai mais longe: a distinção do real da utopia ou sonho individual se faz pelo contato com a comunidade. A comunidade seria, então, um esteio por onde as crenças se confirmam ou são rejeitadas (o pensamento pragmático).
Surpreendentemente, Zygmunt Bauman publica livro (Aprendendo a pensar com a sociologia, Jorge Zahar Editores) que trata do mesmo tema: os vínculos comunitários. Mas a partir de um foco mais crítico. O autor polonês adota o mote da tensão entre liberdade pessoal e dependência (contingências e regras sociais) ou, ainda, a aceitação de pessoas estranhas às suas crenças e cultura (tema deste início de século). O estranho é cada vez mais comum à paisagem volúvel da fragmentação social e globalização cultural. Daí (retoma tese de Touraine, sem citá-lo) nos refugiarmos na semelhança e na aparência (no perfume de sempre, na marca do automóvel, na comunidade conhecida), por mais efêmera que seja. Seria nossa proteção. Mas a "responsabilidade moral" ressurge (aquela que é voltada para a felicidade do outro), desmontando o conforto do comunitarismo. Enfim, a tensão permanente entre moral e conforto individual e comunitário.
O mais interessante é que para Bauman, a comunidade não se define pela proximidade física, mas como "unidade espiritual", como "postulado" por onde se divide ideais.
Tanto Bauman quanto Dewey trabalham a tensão social permanente como fruto desta comunicação entre desejos e interesses individuais por onde brotam identidades e valores morais. Um dilema cada vez mais presente neste século de encontros fáceis, cada vez mais fluidos e contingenciais. Como diz Bauman:
Somos continuamente encorajados a consumir em nossa busca do inatingível - o estilo de vida perfeito em que a satisfação reine, suprema.

Não aprendemos a lidar com o inatingível. Possivelmente daí nasce a mudança social e a utopia. E daí nasce a ferida de morte do conservadorismo e cinismo. Por mais paradoxal que pareça.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Eleição de Laura Chinchilla na Costa Rica: a direita se reestrutura?


Laura Chinchilla será a primeira presidenta da Costa Rica. Venceu as eleições com 47% dos votos. Junta-se a Chile, Argentina, Bolívia, Panamá, Nicarágua e Jamaica, países latino-americanos que elegeram mulheres para o cargo público máximo. É graduada em Ciências Políticas pela Universidad de Costa Rica e obteve o mestradeo em Políticas Públicas pela Universidade de Georgetown (EUA).
Contudo, Chinchilla condena a união entre gays, é contra o aborto e até mesmo a separação entre Igreja e Estado. Alguns analistas comentam que se trata de uma versão de Sarah Palin. Sua eleição, portanto, se soma ao avanço da "direita civilizada" chilena, hondurenha e panamenha. É verdade que, com exceção do Chile, são países marginais na geopolítica do continente. Mas pode revelar esgotamento do discurso agressivo da esquerda caribenha e/ou sob influência chavista.

Novo livro de Michael Lowy


Michael Löwy nasceu no Brasil, mas vive em Paris desde 1969. É diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Foi assistente de Nicos Poulantzas. Nos anos 1950-1960, fez parte da Liga Socialista Independente. Em 1968, associou-se à Quarta Internacional (trotskista), tornando-se membro da Primeira seção, a Ligue Communiste.
Este engajado sociólogo acaba de publicar livro que reúne os principais registros fotográficos dos processos revolucionários do final do século XIX até a segunda metade do século XX, destacando-se fotografias da Comuna de Paris, as revoluções Mexicana (1910–1920), Russas (1905 e 1917), Alemã (1918–1919), Húngara (1919), Chinesas (1911 e 1949), Cubana (1953–1967) e a Guerra Civil Espanhola (1936). Para a edição brasileira (Editora Boitempo) preparou apêndice exclusivo, sobre os momentos de resistência que marcaram a história do Brasil. O livro possui também um capítulo que passa em revista uma série de eventos transformadores dos últimos trinta anos: o Maio de 1968, a Revolução dos Cravos em Portugal (1974) e a Nicaraguense (1978–1979), a queda do Muro de Berlim (1989) e a sublevação zapatista de Chiapas (1994–1995).
Vale a pena, não apenas pelo registro histórico, mas para uma visão panorâmica do que mudou, efetivamente, nas lutas revolucionárias, da Comuna de Paris ao movimento neozapatista.
Confesso que fiquei com a impressão de que o critério utilizado para definir movimentos revolucionários é o mesmo utilizado por Marx, no século XIX. Seria correto? Ao introduzir o apêndice sobre resistência brasileira à ditadura, não estaria abrindo um possível leque analítico (ao invés de se limitar a resistência política aos grupos de inspiração marxista)? Onde ficariam os movimentos de resistência do século XXI? E as estruturas em rede, os fóruns e outras novidades?
O livro é novo, mas o conteúdo deu impressão de anacronismo.

Cuba na Venezuela


A revista Analitica.com publica artigo em que divulga que existem, hoje, 100 mil cubanos na Venezuela, desenvolvendo atividades de cooperação entre os dois governos. Médicos, assessores educacionais. Cita, ainda, a presença do comandante cubano Ramiro Valdez, ex-ministro do Interior a quem se acusa pela repressão aos movimentos oposicionistas ao castrismo. Como ministro de Informática y Comunicaciones de Cuba, é acusado de cercear a livre comunicação entre blogueiros da Ilha.
Estas são as acusações. Não deixa de ser algo muito estranho, caso seja verdade. Num rápida comparação, seria como chegassem ao Brasil mais de 720 mil cubanos para auxiliar o governo Lula.
Ressalto este fato para reforçar o quanto lideranças de esquerda de nosso país não podem defender ações pouco democráticas em função de emblemas ou fetiches. O governo cubano presta um desserviço a um projeto efetivamente de esquerda. Ontem, topei com o livro Revoluções (editora Boitempo), de Michel Lowy. Fiquei com um sentimento, a despeito da originalidade e importância do autor, de saudosismo, de dificuldade em superar as marcas do século XIX.

Intervenção federal no DF: a vontade do DEM e a vontade do PT


A história da intervenção federal no DF parece que terá alguns capítulos a mais. Obviamente que se o judiciário decidir, não restará muita alternativa ao governo federal. Contudo, petistas não desejam assumir o desgaste. Melhor: querem que o desgaste fique com Paulo Octávio e o DEM. Paulo Octávio, por sinal, enfrentará os 4 pedidos de impeachment apresentados ontem. Já o DEM, por motivos óbvios, torce para que a intervenção ocorra. Perderia os anéis, mas ficaria com os dedos.
Por seu turno, o governo federal já acionou ministros com acesso ao Supremo Tribunal Federal (como Nelson Jobim, ex-presidente do STF) para evitar a intervenção.

Ainda sobre a crise permanente no PSOL


Fazendo coro à nota que postei abaixo, vale lembrar que as divergências internas do PSOL são cada vez mais pessoais, revestidas de ideológicas. No ano passado, lembremos, houve uma rusga feia entre Ivan Valente e Luciana Genro. Luciana chegou a enviar carta à direção partidária acusando seu colega de machista e desequilibrado. Isto porque Valente teria dito que ela fez um “roubo de galinha” ao defender os outdoors (durante discussão sobre reforma eleitoral). A bancada do aguerrido partido se dividiu na votação em plenário da Câmara Federal.
Estas rusgas lembram, em muito, as divergências internas no PCB e suas inúmeras correntes, logo após sua fundação. As discussões descambavam para o terreno pessoal. E isto quando o partido se desesperava porque não tinha base operária, uma contradição em termos. De lá prá cá....

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O debate interno no PSOL


Martiniano Cavalcante, do PSOL, publicou artigo (REFLEXÕES SOBRE O PRIMEIRO DEBATE ENTRE OS PRÉ-CANDIDATOS DO PSOL) que indica as divergências internas no seu partido. Segundo ele, o debate sobre o programa e campanha presidencial (entre ele, Plínio de Arruda Sampaio e Babá) "mostrou que a discussão recém iniciada se dá em torno de concepções contrapostas numa frontal oposição entre dois campos." A partir daí, destaca o que considera "uma grande ameaça representada pelos que propõem um perfil de campanha acentuadamente propagandista e doutrinária". Um debate que já envolveu a quase totalidade dos partidos de esquerda no Brasil. Convenhamos que não há muita novidade. Cavalcante destaca o possível isolamento político que se avizinha. Mas o PSOL já não vive tal isolamento?
Em seu artigo, faz uma advertência dramática: "a idéia de uma campanha que busque deliberadamente “chocar” a opinião pública, contrasta com o esforço de Plínio para se mostrar simpático e cordato."
E termina com a também conhecida "sopa de letrinhas":
"Reafirmo a minha convicção de que a Direção do PSOL encaminhou a política correta para o assunto. Dirigentes da APS, MES, ENLACE, PODER POPULAR e independentes que foram responsáveis pela condução daquela política não foram em nenhum momento derrotados pela base. Ao contrário, conduziram o Partido, deixando-o em posição privilegiada para disputar o voto e a simpatia dos setores de massa, mais conscientes, que são atraídos pela candidatura de Marina Silva."

Crise na educação argentina

O jornal La Nación (aqui) publica matéria em que se revela que 900 mil adolescentes argentinos não estudam e não trabalham. Vários ministros admitiram que o ensino secundário (ensino médio0 é um fracasso.

Tolstoi


Aproveitando o filme recém lançado nos EUA sobre a vida de Leon Tolstoi, reproduzo uma das frases-símbolo registrada em Anna Karenina (lembro que este livro foi escrito em meio à uma crise de seu casamento com Sônia Andreievna Bers, com quem teve 13 filhos):
Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes o são à sua maneira

China: crescimento menor em 2010


Jonathan Fenby, analista da economia chinesa, prevê crescimento menor em 2010 (6% a 7%, contra 10% em 2009). O governo chinês está preocupadíssimo com inflação em elevação e cortou 25% do volume de crédito no país. Já o Brasil, projeta crescimento do PIB em quase 6%. Mas esta projeção para a economia chinesa vai aumentar a tentação do freio pelo Banco Central.

A corrida entre Arruda e o STF

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ingressou nesta quinta-feira no STF (Supremo Tribunal Federal) com pedido de intervenção federal no Distrito Federal. Gurgel disse que o pedido se justifica porque há no governo do DF uma "verdadeira organização criminosa" comandada pelo governador José Roberto Arruda (ex-DEM, sem partido). O presidente do STF, Gilmar Mendes, expediu despacho sobre este pedido ainda hoje. Segundo blog de Josias de Souza, requisitou informações ao governo do Distrito Federal e ao procurador-geral Roberto Gurgel, autor do pedido. Deu prazo de cinco dias para que os dados sejam encaminhados ao Supremo. Depois, vai nomear um ministro para relatar o caso. O pedido será, então, levado ao plenário do STF. E os 11 ministros que o integram decidirão se a intervenção deve ou não ser decretada. Prevalencendo a posição da Procuradoria, Gilmar Mendes comunicará o fato a Lula, a quem caberá nomear o interventor.

Caso Arruda aumenta tensão no DEM

Da Agência Brasil:
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), membro da executiva nacional e presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) fez duras críticas hoje ao presidente nacional do partido, deputado Rodrigo Maia, com relação a postura que tem adotado nos casos da suposta corrupção que envolvem o governador do Distrito Federal afastado do DEM, José Roberto Arruda, e parlamentares filiados ao partido. "A omissão do presidente nacional do DEM é no mínimo um ato de covardia", disse o presidente da CCJ do senado. Demóstenes Torres acrescentou que todo o partido tem cobrado "dioturnamente" uma posição mais firme de Rodrigo Maia diante de uma situação que "extrapolou os limites do governo do Distrito federal e já atinge o partido nacionalmente". O parlamentar acrescentou que diante da posição adotada pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Fernando Gonçalves, de pedir a prisão de Arruda e de mais cinco pessoas ligadas ao governo, alguns deles parlamentares, é necessário que a executiva nacional "dissolva de imediato" o diretório regional em Brasília e expulse "sumariamente os parlamentares do DEM ligados aos casos de corrupção na capital federal". O parlamentar ressaltou que essa postura deveria ter sido adotada quando o partido abriu processo de expulsão de Arruda logo que as primeiras denúncias vieram à público. O senador afirmou que caso Rodrigo Maia não tome decisões firmes com relação a questão, ainda nesta semana, ele e o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) tomarão providências independente da posição adotada pelo comando nacional do partido. Torres não antecipou quais seriam estas providências.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Um sopro progressista no jornalismo televisivo


O jornal Em Cima da Hora, da GloboNews tem, na jornalista Leilane Neubarth, uma ponta de lança do que considero novo jornalismo. Séria e com análises de cunho progressista é uma novidade (não ela, já conhecida do grande público desde os anos 80) na linha editorial da televisão brasileira. Trata-se de uma jornalista independente. Nas eleições cariocas, desconcertou Eduardo Paes quando perguntou, ao vivo: “O senhor atacou o governo Lula e hoje diz que tem excelentes relações com o governo do presidente. Em qual Eduardo Paes o eleitor vai votar: naquele que foi agressivo, que atacou o governo? ou nesse que diz ser parceiro do presidente?” Mas também bateu boca com a candidata Jandira Feghali (PCdoB). No blog do Reinaldo Azevedo (aquele da falida revista Primeira Leitura) encontramos um comentário de um internauta sobre ela que revela o quanto sua independência irrita o pensamento conservador: "Na TV a apresentadora Leilane Neubarth deitando falação com um flagrante viés antiamericano."
Leilane não faz análises de esquerda. E é aí que, pela comparação, percebemos o quanto a linha editorial da política televisiva brasileira é conservadora.

Paulo Otávio assume o governo do DF

Ao contrário do que se ventilou, o vice-governador decidiu assumir o governo do DF. Até onde se sabe, parece ter sido uma disputa de bastidor com o grupo de Arruda, que preferia que o presidente da Câmara Distrital assumisse interinamente (eles esperam) o governo. Com a possibilidade de intervenção federal, as coisas parecem ter se acertado.

Governador Arruda já está preso


José Roberto Arruda já está preso na Polícia Federal. É o primeiro caso de prisão de governador em nosso país em pleno regime democrático. Também se destaca neste caso que o judiciário se antecipou à CPI e processo de julgamento político (impeachment, como ocorreu no caso Collor). Já estava em curso a elaboração de habeas corpus preventivo pelos advogados de Arruda, ou seja, já se esperava que algo do gênero ocorresse. Mas não em tal velocidade.

Distrito Federal sob intervenção federal?

Doze dos 15 ministros da Corte Especial do STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiram nesta quinta-feira decretar a prisão preventiva do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (ex-DEM), envolvido no escândalo do mensalão do DEM. O vice-governador, Paulo Octávio, deveria assumir o cargo, mas anunciou que vai se licenciar. Na sequência sucessória, o presidente da Câmara Distrital assumiria. Contudo há um forte indício que haverá solicitação de intervenção federal. O artigo 84, da Constituição Federal define a competência da Presidência da República para executar a intervenção.
O DEM deliberou, neste momento, que todos filiados do partido que tenham cargos de confiança no governo do DF se afastem imediatamente.
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A hierarquia salarial do migrante brasileiro nos EUA


A crise econômica dos EUA já trouxe muito migrante brasileiro de volta. Gente que ficou muito tempo por lá, 5, 6 até 15 anos. E muitos, ao contrário do que se imagina, voltaram sem saber falar ou escrever bem em inglês. Não se qualificaram. Ouviam rádios brasileiras, falavam português ou, no máximo, arrastavam um portunhol. A grande maioria foi e voltou com baixa qualificação. E sofreram com os salários: 8 dólares a hora como piso informal, chegando a 45 dólares (o salário base do norte-americano neste nível de qualificação). Pouco mais de 3000 reais a 13000 reais mensais. Cito os trabalhos de base na construção civil ou de limpeza de neve (pago por centímetro de neve retirada, jogando-se sal antes e depois). Chegam a trabalhar de 11 a 14 horas, muitas vezes de madrugada (no caso da limpeza da neve). Antes da crise se pagava US$ 2,50 por aproximadamente 30,5 cm (1 feet) de piso de madeira colocado em apartamentos. A partir da crise o valor passou a US$ 1,75.
A forma de contratação, por empreitada, é das mais personalizadas e dependentes. Um trabalhador pode decidir não voltar ao trabalho no dia seguinte e não será repreendido (recebe por dia trabalhado, a cada semana). Mas ficará sempre nas mãos do empreiteiro que decide ou não se contrata no dia (algo parecido com o que sempre ocorreu na relação dos bóias-frias com "gatos", aqui no Brasil). E o lazer é algo mais que marginal.
Enfim, estas histórias não aparecem com clareza para os brasileiros. Deveriam ser divulgados obrigatoriamente nos aeroportos.

Artigo sobre meu livro, no O Globo de hoje

2010 E A CLASSE C
Merval Pereira

A pesquisa que a Fundação Getulio Vargas divulgou ontem mostrando que os efeitos da crise financeira internacional frearam a mobilidade social que o país vinha desenvolvendo nos últimos anos revela também a fragilidade do processo de inclusão social na base do consumo popular, fomentado pelos programas assistencialistas e o aumento do salário mínimo. O avanço permanente desde 2004 da classe média foi paralisado pela crise, fazendo com que a classe C — famílias com renda de R$ 1.115 a R$ 4.807 — permanecesse praticamente no mesmo patamar de dezembro de 2008 a dezembro de 2009: representava 53,58%, uma queda de 0,4% no período.
O crescimento da “nova classe média”, no entanto, continua formidável. Em dezembro de 2003, a classe C representava 42,99% do total da população.
A notícia boa é que a recuperação, tanto da classe AB — que cresceu 2% — quanto das demais, ocorreu no mesmo ano da crise, recuperando perdas que foram mais sensíveis no último trimestre de 2008 e no primeiro semestre de 2009. No trabalho da Fundação Getulio Vargas há uma parte dedicada para prospecções dos próximos quatro anos, até 2014, período do futuro mandato presidencial pós-Lula.
Embora otimista, o trabalho não se alinha a um outro, divulgado meses atrás pelo Ipea, que previa o fim da pobreza no país nos próximos anos.
O economista Marcelo Neri, coordenador do trabalho, acredita que seja possível reduzir a pobreza pela metade nesse período, caindo de 16,02% da população para 7,96% em 2015, com a seguinte previsão por classes sociais: queda da classe D d e 24,35% para 19,9%; aumento da classe C para 56,48%; e aumento da classe AB de nada menos que 50%, passando a representar 15,66% da população. Marcelo Neri reforça a constatação de que se a pobreza cai pela metade, a classe AB dobra. Com esses números, cerca de 2,6 milhões de cidadãos seriam incorporados ao mercado consumidor, somando um total de 36 milhões de brasileiros a mais na classe média desde 2003.
Esse cenário de longo prazo, se analisado apenas pelo ano de 2010, traria números excelentes para o governo em pleno ano eleitoral, segundo a previsão de Neri. A pobreza cairia 10% este ano, por exemplo. Na sua análise, Neri não vê fatores restritivos à expansão da economia em curto prazo, prevendo que a redução generalizada de estoques em 2009 mostra que os empresários temeram uma recessão pior do que a ocorrida, e isso terá um efeito expansionista neste ano, assim como a retomada dos empregos ajudará a fortalecer o mercado interno.
Além de todos os efeitos econômicos, inclusive os estatísticos que ajudarão a aumentar o PIB de 2010, o economista Marcelo Neri vê uma razão bastante pragmática para prever um bom ano: “Se 2010 seguir a tradição de todos os anos eleitorais da nova democracia brasileira, há que se esperar ganho em todas as fontes de renda e nas transferências públicas em particular”, comenta ele. A importância política dessa recuperação é fundamental para os planos do governo de eleger como sucessora a ministra Dilma Roussef. O cientista político e ex-porta-voz de Lula André Singer, professor da USP, já havia divulgado um trabalho em que definia o lulismo como baseado no subproletariado beneficiado pelos programas assistencialistas do governo e pelo aumento do salário mínimo dentro da lógica conservadora, “que identificou no governo um fiador da estabilidade econômica e garantidor de sua nova situação financeira”.
Na definição do sociólogo mineiro Rudá Ricci, que está lançando o livro “Lulismo, Da Era dos Movimentos Sociais à ascensão da Nova Classe Média Brasileira”, o surgimento dessa nova classe “é o fenômeno sociológico mais significativo por que passou o país na primeira década do século XXI e que formatou o lulismo enquanto programa de modernização e gerenciamento político”. Mas ele constata que a inserção se deu “pelo consumo e não pelas práticas políticas ou sociais”.
Ele não vê o lulismo como a volta do populismo clássico, mas “como um novo processo de inclusão social a partir do Estado como tradutor dos interesses sociais desorganizados”.
Para ele, “o fato relevante é que o lulismo gerou e se alimenta da emergência da nova classe média brasileira”. Segundo o sociólogo, essa mobilidade social dá sentido ao estilo discursivo e ao projeto estataldesenvolvimentista do governo. “Lula fala para esta nova classe média, milhões de brasileiros que rompem com histórias familiares de exclusão do consumo de massas”. Os componentes dessa nova classe, que durante o pico da crise internacional teve redução sensível na sua composição, especialmente devido ao desemprego, são, segundo Rudá Ricci, “brasileiros pragmáticos como o lulismo. Não são afetos a teorias ou ideologias. São descrentes da política.Seus vínculos sociais são comunitários, muitas vezes familiares”.
Esse pragmatismo e o conservadorismo da nova classe, identificados pelos dois cientistas políticos, podem representar também uma armadilha para a candidatura oficial. Se esse eleitorado, teoricamente cativo do “lulismo”, não sentir na candidata oficial a melhor garantia de continuidade, abre-se campo para outros candidatos, que explorarão a inexperiência da ministra Dilma e as posições mais à esquerda que seu programa de governo sinaliza.