sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Tea Party e a marola política


Tea Party perdeu força e influência nas eleições dos EUA, apontam especialistas

Fábio Luís de Paula
Do UOL, em São Paulo

Alguns o consideram um “movimento ultraconservador”, outros uma “expressão cultural do conservadorismo do final do século 20”, mas a verdade é que o Tea Party, (Partido do Chá, em tradução livre), independente de análises, não é mais a mesma coisa que era quando foi alçado aos olhos do público em 2009, com o estouro da crise econômica nos Estados Unidos. “O Tea Party perdeu muita força nessas eleições. A influência deles hoje é mínima. Eles perderam espaço midiático. O próprio discurso do Romney era uma coisa nas primárias, e agora moveu-se bastante ao centro. Tanto que, no último debate, as propostas deles estavam bem parecidas com as do Obama”, avalia Heni Ozi Cukier, professor de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). O nome do movimento faz referência à "Festa do Chá de Boston", protesto contra impostos britânicos considerados abusivos no século 18. Ao definir o Tea Party, Cukier explica que ele não é um partido. “É um movimento orgânico, não organizado hierarquicamente ou institucionalmente, que compartilha valores e ideias e segue alguns princípios e valores políticos em que acreditam”, afirma.
Já Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp em Araraquara (SP) e autor do livro "De Clinton a Obama - Políticas dos Estados Unidos para a América Latina”, observa o Tea Party como “uma corrente de opinião que se expressa dentro do Partido Republicano e traz a crítica à economia e aos serviços de saúde”. “É uma linha de crítica muito forte, mesmo com o pouco peso que exercem. O que muda é que eles conseguiram uma boa representação parlamentar e se tornaram um índice político forte”.

Influência sobre Romney

Se o republicano Mitt Romney ganhar as eleições presidenciais, Cukier considera que o Tea Party terá uma voz dentro do governo. “Pode ser que se fortaleça. Em 2010, eles conseguiram 39 parlamentares e fizeram com que suas ideias valessem. E aí, com esse espaço político, trouxeram a agenda deles através dessa voz no Congresso”.
Outro expoente do movimento no possível governo Romney é o candidato a vice, Paul Ryan, adepto do Tea Party, apesar de não seguir muitos dos pontos que são defendidos. “Ryan tem grandes chances no futuro de ser um candidato republicano à Casa Branca e, como o Tea Party não conseguiu emplacar um candidato à presidente, Romney vai ter que ceder se ganhar, fazendo concessões a esse grupo”, disse Ayerbe.
Dessa forma, Ayerbe considera também que o Tea Party coloca os republicanos em uma armadilha, pois obrigaram Romney, que é moderado, a ficar mais de direita e tradicional, tomando posições em temas polêmicos como o aborto. "O Tea Party estrangulou tanto o Partido Republicano que o oxigênio parou de ir para o cérebro", disse o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, durante comício para cerca de 1.600 pessoas em uma universidade de New Hampshire.

Quem eles são?

estudo de 2011, "Cultures of the Tea Party", feito pelo professor de sociologia da Universidade da Carolina do Norte, Andrew Perrin, aponta que autoritarismo, liberalismo, medo de mudanças e rejeição à imigração são as quatro características que definem os simpatizantes do movimento. Eles consultaram cerca de 4.000 eleitores americanos e descobriram que 81% dos favoráveis ao Tea Party consideraram que a obediência das crianças é mais importante que a criatividade, e que a autoridade é um valor fundamental. Outra pesquisa mais recente, feita pelo Instituto Público de Estudos sobre a Religião dos EUA e divulgada em setembro deste ano, mostra que a “classe trabalhadora branca americana” que votará em Romney (cerca de 48%, contra 35% para Obama) não é mais tão mais ligada ao Tea Party. Apenas 13% deles são simpáticos ao movimento. “Os seguidores das ideias do Tea Party são um grupo. São ricos e também de setores tradicionais menos cosmopolitas, principalmente do interior, ou desempregados que atribuem a culpa de seus problemas aos imigrantes, e que defendem que o país precisa voltar às suas raízes anglo-saxônicas, brancas e protestantes. Isto é, há apoiadores de setores pobres e ricos, que defendem a política da diminuição de impostos ou uma posição mais agressiva internacionalmente. Apesar de serem fundamentalistas, no país existe esse aspecto da liberdade de opinião”, observa o professor Ayerbe.

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