quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A explicação de Zé Dirceu

O Brasil de Fato publicou uma longa entrevista com Zé Dirceu em que analisa sua condenação pelo STF. Uma entrevista previsível em que a frase de destaque da matéria já traduz o que vem em seguida: "minha condenação foi um instrumento de vingança contra o Partido dos Trabalhadores". Frase, aliás, já condenada pelo governador Tarso Genro, já que procura vincular a ação pessoal com a do partido. A íntegra pode ser acessada AQUI .
Vou destacar algumas passagens e comentar ao final:


QUEM É DIREITA E O PAPEL DA IMPRENSA

A coalizão de direita no Brasil hoje é a coalizão do PSDB, DEM, PPS, que se expressa numa coalizão parlamentar e em um conjunto de governos. (...) Quem procura dar coesão, palavras de ordem, são seto­res da mídia. A questão do Ministério Pú­blico e outros setores do Judiciário é que eles estão construindo uma teoria, e es­tão construindo instrumentos e decisões judiciais que expressam a visão dos inte­resses dessa direita. Isso é legítimo se é feito no Parlamento. (...) Mas não é isso. Eles estão de certa ma­neira usurpando, procurando transferir esse poder para parcelas do Judiciário. 

SOBRE PUBLICIDADE OFICIAL
A publicidade do governo está regula­da por leis. A minha interpretação é que nós poderíamos nos apoiar em dois arti­gos da Constituição – o artigo do plura­lismo e o artigo do apoio à pequena em­presa – para fazer uma distribuição di­ferenciada e não apoiada apenas na vendagem, na audiência. Nessa perspectiva nós poderíamos ter avançado mais.

SOBRE O JULGAMENTO NO STF
É estarrecedor que um ex-ministro do Supremo faça um prefácio de um livro sobre o tema, sendo que a ação não ter­minou ainda. Isso demonstra o caráter político dela, de disputa política, de jul­gamento político do governo do Lula, do PT, e de certa maneira da esquerda. Eles quiseram transformar nisso essa ação e não apenas no julgamento de determi­nados crimes ou atos ilícitos praticados por dirigentes do PT. E não tem nada a ver com compra de voto nem com uso de dinheiro público. Está mais do que provado que eram empréstimos bancários que foram entregues ao PT, sem contabi­lizar, de uma forma que infringe a legis­lação eleitoral, e tem questões bancárias, fiscais para analisar. Mas eles transfor­maram no famoso ‘mensalão’ e na ques­tão de que havia dinheiro público que foi desviado, como se nós tivéssemos tirado dinheiro do Banco do Brasil. E nem é do Banco do Brasil, é da Visanet, que não é dinheiro público, vem de 0,1% de ca­da movimentação de cartão de crédito, é um dinheiro para propaganda




A REAÇÃO
Estão respondendo, porque agora se trata também de um processo político, não se pode resolver essa questão a curto prazo, é uma questão de médio e lon­go prazo. Temos que ir acumulando for­ça, e crescendo o movimento de opinião pública, na base da sociedade, apresen­tar nossas provas. 

A AGENDA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
A prioridade para o Brasil nesse momento é o enfrentamen­to dessa ofensiva da direita. A priorida­de política. Sua outra faceta é uma reforma política, democrática, que pode pas­sar por um referendo ou uma constituin­te, já que o Congresso se recusa a fazer. O Senado já fez, mas fez a do voto pro­porcional. Aliás, aprovou o financiamen­to público, cláusula de barreira, voto em lista. Uma reforma que apoiamos. Tem também a necessidade de aprofundar as reformas sociais e econômicas que o país precisa, para crescer de uma manei­ra sustentável, com distribuição de ren­da, que garanta a soberania nacional e a integração sul-americana. A agenda po­lítica é essa. Lógico que a regulação da mídia é importante, a denúncia da Ação Penal 470 é importante, mas é preci­so fazer uma hierarquia de prioridades.

Minhas observações:
Nada de novo. Zé Dirceu tenta politizar ao máximo a condenação e gerar confronto com o judiciário. Vincula a imprensa com a ação do STF, mas ao final, prioriza a reforma política e avanço nas reformas sociais. Esta é a via clássica do PT: o enfrentamento pela política. Interessante que a grande imprensa e as articulações conservadoras não fazem este caminho. Preferem o discurso do avanço econômico (a modernização e as condições para o Brasil surfar nas possibilidades de crescimento) e o embate no campo judicial. Para aumentar a pressão política, Zé Dirceu precisa liderar este enfrentamento para não cair no esquecimento. Daí sugerir que o embate do STF foi com o PT. Ainda que fosse, o PT parece não ter se abalado de maneira alguma. Um ou outro líder petista ainda tentou argumentar, após as eleições municipais, que o julgamento do mensalão afetou o processo eleitoral. Não afetou ou foi absolutamente marginal. Este vínculo - entre julgamento e poder eleitoral do PT - tem endereço certo: agregar todo corpo dirigente e militância petista, assim como envolver e indignar simpatizantes e democratas que se sentirem agredidos por uma possível manipulação de direita. O recado seria este: "vencemos no processo eleitoral e a maioria da população está conosco, mas a direita se articula, envolvendo parte do judiciário, numa ofensiva orquestrada pela grande imprensa". Só restaria reagir. Numa reação política, quem ganharia espaço é justamente quem se viu afetado pela condenação da AP 470. Enfim, o julgamento seria legal, mas ilegítimo. Uma volta para o futuro, já que este foi justamente o discurso de todos nós, de esquerda, sobre as arbitrariedades do regime militar. 

Um comentário:

Educação disse...

Profº Rudá,
aguardamos, se for possível, as suas observações sobre o livro do jornalista Paulo Moreita Leite, com prefácio do Jânio de Freitas - teriam sido cooptados? - "A Outra História do Mensalão".

Muito obrigado.