quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Andrea Neves em conflito com Marcio Lacerda

Para confirmar a situação de queda de prestígio (ou conflito em alta) da irmã de Aécio Neves, reproduzo, abaixo, matéria publicada pelo Estado de Minas (ver AQUI ) . A matéria, publicada hoje, revela um episódio envolvendo cabeçada de Andrea Neves no prefeito (cotado para ser candidato a governador de MG) Marcio Lacerda (PSB).
Gente experiente não entra em tanto conflito sem causa, por esporte. Há, portanto, fundamento nas análises informais que se reproduzem na capital mineira que dariam conta de um desgaste crescente de Andrea e seu irmão, senador, com governos de Anastasia e Marcio Lacerda.



Atrito entre Lacerda e PSDB atrasa anúncio dos nomes do secretariadoAinda sem acordo sobre as indicações do PSDB, prefeito empurra a complexa e lenta definição do secretariado e do segundo escalão da prefeitura para depois do carnaval

Publicação: 31/01/2013 06:00 Atualização: 31/01/2013 07:10
Em evento no Palácio da Liberdade, Lacerda e Anastasia tentaram amenizar o embate em torno de cargos
 (Breno Pataro/divulgação/PBH)
Em evento no Palácio da Liberdade, Lacerda e Anastasia tentaram amenizar o embate em torno de cargos


O embate entre Marcio Lacerda (PSB) e o PSDB por causa das indicações para o primeiro escalão de seu segundo mandato obrigou o prefeito a adiar o anúncio dos nomes para depois do carnaval. Em encontro com o governador Antonio Augusto Anastasia (PSDB), Lacerda tentou amenizar o atrito com os tucanos. O clima, no entanto, ainda é tenso, mesmo depois de almoço com a participação dos dois e do senador Aécio Neves, na terça-feira. O prefeito já vetou uma indicação do partido, “desestimulou” outra e colocou uma terceira em banho-maria. Todas os pedidos foram feitos por Aécio para cargos na área de obras. Já há quem defenda que o filho do prefeito, Tiago Lacerda, seja exonerado da Secretaria de Estado Extraordinária da Copa do Mundo.

O prefeito, que participou ontem, ao lado do governador Anastasia, do lançamento de projeto para terminais de integração metropolitana de ônibus, disse que as negociações são longas. “Precisamos encontrar um equilíbrio político e administrativo para que haja melhor governabilidade no trabalho interno da prefeitura, na relação com a Câmara, com o governo do estado e a sociedade. É uma engenharia política complexa e lenta e só vai ser concluída no primeiro e segundo escalões depois do carnaval”, afirmou, no evento no Palácio da Liberdade.

Anastasia seguiu a mesma linha. “Muitas vezes, os jornais gostam de criar fatos onde eles não existem. A relação pessoal entre o governador do estado e o prefeito, e do senador Aécio com o prefeito, é a melhor possível. Inclusive, almoçamos ontem (terça-feira) num clima totalmente amistoso. Do ponto de vista político, também é natural que, muitas vezes, a imprensa goste de dar uma pitadinha, um tempero, mas neste caso, obviamente, isso é inexistente”, disse.

A verdade, no entanto, é que os tucanos estão nervosos, sobretudo pelas respostas que Lacerda vem dando às indicações feitas pelo partido em conversas cara a cara com os indicados. Em uma, com o deputado estadual João Leite (PSDB), indicado por Aécio para a Secretaria de Obras e Infraestrutura, o prefeito afirmou que o parlamentar não ocuparia o cargo porque ele estava gostando muito de quem responde atualmente pela pasta, José Lauro Nogueira Terror, ex-funcionário de empresa no setor de telefonia que Lacerda tinha antes de entrar para a vida pública.

A outra “indelicadeza” do prefeito, segundo os tucanos, foi com Paulo Bregunci, pai do secretário-geral adjunto da Governadoria do Governo de Minas, Thiago Bregunci, indicado para a Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel). Ao receber Breguci, o prefeito disparou: “O senhor pode assumir, mas devo avisá-lo que vamos passar para a Secretaria de Obras boa parte das atribuições da empresa. E mais: sou exigente, cobro muito, e se não atenderem as minhas expectativas, eu mando embora”.

A terceira indicação de Aécio Neves foi a do diretor de Irrigação da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), Reinaldo Alves Costa, para a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap). O nome não foi vetado nem destratado diretamente por Lacerda mas, segundo tucanos, o prefeito não dá qualquer sinal de que chamará Costa. Ao contrário, estaria “queimando” o indicado de Aécio em conversas com interlocutores.

A previsão inicial da própria base de Lacerda na Câmara era de que o secretariado fosse anunciado dias antes do carnaval. Até o momento, é certo apenas que os tucanos serão mantidos na Secretaria de Saúde e na BHTrans. A avaliação do PSDB, porém, é de que o partido merecia mais. “Aécio Neves foi o responsável pela retirada de Délio Malheiros (deputado estadual do PV) e de Eros Biondini (deputado federal do PTB) da disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte. Além disso, muitas empresas só contribuíram para a campanha de Lacerda porque Aécio apoiou o PSB na disputa”, afirma um integrante do grupo de articuladores próximos ao governador Anastasia. Délio virou vice de Lacerda. Já Biondini assumiu a Secretaria de Estado de Esportes e Juventude.

Fatura paga

O prefeito Marcio Lacerda exonerou ontem a responsável na Regional Oeste pela fiscalização de alvarás e documprimento do Código de Posturas do município, Márcia Curvelano de Moura. A demissão está sendo avaliada na Câmara de BH como a primeira fatura paga pelo prefeito ao seu novo líder na Casa, Preto (DEM), que teria imposto a saída de Márcia para aceitar o cargo. O parlamentar tem base eleitoral na região. Com a indicação do vereador, o prefeito tenta aumentar sua base na Câmara. 

Repercussão - Leitores comentam no em.com

“Enquanto isso as nomeações dos últimos concursos estão paradas ou feitas a conta-gotas, para poder dar o lugar de quem tem direito a um bando de oportunistas despreparados para bagunçarem a PBH.”
Soares Soares


“Outra vez somente jogo de interesse! Quem deve ser nomeado para comandar as secretarias das diversas áreas tem que ter primeiramente competência e compromisso com o verdadeiro significado de serviço público.”
Fernando Antonio Ribas


“Mais uma vez fica provado que a suposta meritocracia defendida pelo prefeito não passa de conversa pra boi dormir. Não tenho dúvidas em afirmar que todos esses nomes padecem de efetiva capacidade técnica e gerencial para atender os reais anseios da população de BH. Mas quem se importa? Eles não...”
Fernando Libânio


“O que se espera do servidor público é servir a sociedade nas suas demandas, que não são poucas, todavia, os preclaros politicos mineiros estão preocupados com o loteamento de cargos de forma vergonhosa. Esperamos que oprefeito tome posição coerente, sem politicagem, sem toma lá dá cá.”
Geraldo Nascimento


“É uma vergonha. Trabalhar para o povo que o elegeu, nada. O povo tem que ter vergonha na cara e ir para as praças e acabar com essa pouca vergonha. São candidatos prometendo tudo, depois ficam só brigando por cargo e aumentando seus salários. Filho de um lá, neto do outro cá. E assim vai até a próxima eleição.”
Elias Amorim Santos


“A clareza da incoerência! O PSDB, oposição, desaprova a forma de preenchimento dos cargos federais. Mas em BH age da mesma forma! Já a sociedade desaprova lá e aqui. Carece a todos os políticos, sem distinção, respeito às pessoas. A sociedade ainda não abriu mão do pensar e agir!”
Mário Rafael Soares

Andrea Neves em conflito com Anastasia?

Não reproduzo boatos neste espaço. Desde que noticiei que a Monsanto teria impedido judicialmente a divulgação de uma cartilha sobre transgênicos (notícia enviada por um amigo economista) e, depois, soube que não era fato real, só noticio o que já foi publicado na grande imprensa ou depois de ter checado com mais de uma fonte.
Contudo, a notinha ao lado, que foi publicada hoje no facebook, faz com que eu abra uma exceção. Há, de fato, muitos sinais e comentários da diminuição de espaço de Andrea Neves no governo Anastasia. As "mulhertes fortes" do governo Anastasia seriam Maria Coeli Simões Pires (Casa Civil) e Renata Vilhena (Planejamento). É fato que houve, desde a posse, mudanças nesta correlação de forças, principalmente com a greve de professores, que colocou à prova o "sangue frio" de Renata Vilhena. Andrea Neves se dedicou de corpo e alma nas campanhas municipais do ano passado, mas seu poder não é mais o mesmo junto à caneta do poder.
O desencontro mais recente teria sido em relação à redução da taxa de energia. A "batalha da CEMIG" teria estourado nas mãos do irmão senador, segundo avaliação que teria feito Andrea Neves. Também haveria alguma divergência a respeito da ação que Anastasia teria iniciado na justiça federal em relação à distribuição do FPE. Finalmente, Anastasia não pressionaria Marcio Lacerda pelos cargos que seriam dos tucanos.
Como afirmei, não postaria no blog estes comentários cada vez mais frequentes se esta nota publicada pelo Luis Carlos no facebook (http://www.facebook.com/Luisk2017 ) não existisse.
Enfim, abro espaço para defesas e informações.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Pibinho mineiro

A grande imprensa ignorou a derrapagem da economia mineira. Mas a revista Mercado Comum publicou matéria sobre o fato e reproduzo o início dela logo abaixo. Para quem desejar acessar na íntegra, clique AQUI .
A imprensa, de fato, já é soldado na guerra entre partidos (guerra que pouco significa no dia-a-dia do brasileiro).



IBGE oficializa o declínio econômico de Minas


O governador Antonio Anastasia, baseado em dados que lhe foram fornecidos pela Fundação João Pinheiro, anunciou, no dia 16 de março de 2011, que o crescimento do PIB do Estado de Minas Gerais no ano de 2010 havia alcançado 10,9%, “um resultado extraordinário, superior aos países que têm forte dinamismo econômico”, afirmou na ocasião.
No entanto, estes dados não se confirmaram e o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística anunciou, no dia 23 de novembro último, ter sido o crescimento do PIB de Minas de 8,9% e não de 10,9%, como divulgou o governador. O IBGE classificou o crescimento econômico do Estado em 10º lugar naquele ano, tendo sido o seu desempenho superado pelos estados de Tocantins, Espírito Santo, Rondônia, Mato Grosso do Sul, Acre, Paraíba, Paraná, Amazonas e Roraima. O IBGE divulgou, também, que no acumulado do período de 2002-2010, Minas obteve o sétimo pior desempenho econômico do País e ocupa o 22º lugar no ranking dos estados brasileiros em crescimento de sua economia. Tais dados comprovam e não deixam mais nenhuma dúvida sobre a realidade do declínio econômico de Minas Gerais.
Em solenidade realizada com a presença da imprensa e tendo ao seu lado a Secretária de Desenvolvimento Econômico, Dorothea Werneck, a presidente da Fundação João Pinheiro, Marilena Chaves e o diretor do Centro de Estatística e Informações da FJP, Frederico Poley, o governador declarou à imprensa à época:
“Tenho a satisfação de informar aos mineiros e ao Brasil que o crescimento do nosso PIB foi de 10,9%. É um resultado extraordinário, superior, inclusive, aos padrões dos países que têm tido forte dinamismo econômico, como a China e Índia, e bem superior ao do Brasil, que foi de 7,5%. Isso sinaliza a retomada efetiva da economia do Estado e vamos continuar trabalhando para que tenhamos crescimento econômico sempre”.
Como o órgão que mede o crescimento do PIB no Estado é a Fundação João Pinheiro, o governador baseou-se em dados fornecidos por ela. Á época, de acordo com o Centro de Estatística e Informações da Fundação João Pinheiro, “a taxa de expansão do PIB mineiro de 2010 era a maior da série histórica iniciada em 1995 pela Fundação. Trata-se do melhor resultado de crescimento econômico do Estado dos últimos 15 anos. Até então, o recorde foi verificado em 2004, quando a economia mineira cresceu 5,9%”
A Secretária Dorothea Werneck, naquela oportunidade, também ressaltou que este percentual era superior ao crescimento do PIB da China e da Índia:

“Todos comemoraram a taxa de crescimento do Brasil em 7,5% e estamos anunciando 10,9%, crescimento maior do que a China (10,3%) e maior do que a Índia (8,6%). Estamos vivendo em um Estado que está com um crescimento muito acima da média e isso significa para nós, mineiros, melhor qualidade de vida através da geração de mais empregos, mais renda, através de um potencial de maior consumo ainda em nosso Estado”.
O percentual de crescimento de Minas, divulgado pelo governador, conflitou substancialmente, no entanto, com os números divulgados no último dia 23 deste mês pelo IBGE, segundo o qual o crescimento de Minas naquele ano foi de 8,9%, classificando este resultado o Estado em décimo lugar entre todas as unidades da federação. Estão na frente de Minas, Tocantins, com 14, %, Espírito Santo, com 13,8%, Rondônia, com 12,6%, Mato Grosso do Sul, com 11%, Acre, com 10,9%, Paraíba, com 10,3%, Paraná, com 10%, Amazonas, com 10% e até Roraima, com 9,6%.

Dilma abandona o pibão?

Cristiano Romero publica boa análise no Valor Econômico que leva o título de "O câmbio no centro da política econômica". A tese central é a que segue, abaixo (reproduzido da coluna):


Tudo indica que o governo começa a reconhecer que não é possível atingir todos os objetivos ao mesmo tempo - juro baixo, câmbio desvalorizado, gasto público crescente, economia acelerada e inflação cadente. Nos últimos dias, a presidente Dilma Rousseff deixou claro, em vários discursos, que as principais metas de seu governo agora são manter os juros baixos e reduzir custos de produção (corte da tarifa de energia à frente).
Neste caso, dólar valorizado e pibão saem da agenda sem alarde. Caminhamos para mais um ano mais ou menos, sob controle, administrando o consumo, emprego e procurando dar sustentação à produção. 

A disputa pela sucessão de Dilma e Alckmin

A disputa pela sucessão de Dilma já está em ponto de ebulição. O fator principal é o "pêndulo" Eduardo Campos, mas também a movimentação dos partidos da base aliada do governo federal.
Em São Paulo, as especulações também aumentam gradativamente, mas num nível muito inferior ao ponto de aquecimento da disputa federal. Possivelmente, em função da fome da imprensa local, que é a mesma que está no topo do ranking da grande imprensa nacional.
Isto explica a ausência de especulações públicas sobre a sucessão em outros Estados, como aqui em MG.
Reproduzo, abaixo, as projeções de Gaudêncio Torquato a respeito da sucessão de Dilma e Alckmin, publicadas no último Porandubas Políticas. Vou comentá-las, mas antes, darei meus pitacos em relação á sucessão de Antonio Anastasia, já que a imprensa local pouco faz neste sentido.
Sobre MG:
A situação não é nada confortável para Aécio e apoiadores. Já comentei o temor dos partidos aliados perderem cargos comissionados que alimentam sua existência. As dificuldades para encontrar um nome forte e confiável à sucessão de Anastasia são muitas. O nome mais apreciado, no momento, é do presidente da Assembléia Legislativa. Também é citado o nome do prefeito Marcio Lacerda, com o inconveniente dele ser do PSB, o que poderá diminuir sobremaneira o espaço de Aécio num futuro governo estadual (caso Lacerda vença o pleito) já que a possibilidade de candidatura avulsa de Eduardo Campos (ou aliança com Dilma) em 2014 acabará por amarrar Lacerda. Sem governo estadual e na possibilidade de perder a eleição federal, o destino de Aécio começa a ganhar contornos de alto risco político.

Sobre as notas, abaixo, do Porandubas Políticas:
Gaudêncio destaca a guerra de posição no interior do PSDB, envolvendo paulistas e mineiros. Sinto que é mais uma ofensiva (ou ataque defensivo) dos paulistas que um conflito aberto entre duas forças. Em outras palavras, os tucanos mineiros parecem passivos. É fato que um ataque aberto diminuiria ainda mais o brilho do verniz de Aécio Neves, mas a movimentação de Alckmin e Serra, ao final, podem provocar estrago semelhante. Tem a ver com cultura e estilo opostos. Mas também tem relação com poder econômico e paternidade do PSDB.
Gaudêncio percebe, ainda, ausência de proposta substantiva entre aecistas, incluindo seu cacique maior. Problema de toda oposição, eu acrescentaria.
Ao final das notas que reproduzo a seguir, Gaudêncio detalha um cenário em que há espaço para uma terceira força em 2014. Sua análise se concentra em São Paulo. Mas percebo que esta possibilidade ganha força a cada eleição, país afora. O sistema partidário está absolutamente desgastado e o que segura as aparências são os esquemas perversos de alianças que percorrem o Palácio do Planalto até os municípios, os programas de transferência de renda e a festa (com sabor de desforra, de um lado, e de confirmação de poder, de outro) que ainda envolve todo período eleitoral no Brasil. Esta festa é uma das expressões da tradição política brasileira, algo grupal, de origem coronelística, envolvendo toda "entourage" (coronel, cabos, apoiadores desavisados e incautos etc). É verdade que, a levar em consideração o crescente número de abstenção e votos nulos e brancos das últimas eleições, esta "brincadeira juvenil" pode estar perdendo sua atração.

Vamos aos pitacos de Gaudêncio Torquato:


A campanha está nas ruas
No Brasil, o terreno da política é sempre movediço. Há buracos aqui e ali, entrâncias e reentrâncias para entrada e saída dos atores políticos. O remelexo é constante. Idas e vindas, articulações e desarticulações ocorrem ao sabor das circunstâncias. Por isso mesmo, a campanha de 2014 ganha as ruas. A presidente Dilma, em pronunciamento em rede de TV, anuncia redução do custo da energia elétrica para os consumidores e empresas, em claro posicionamento eleitoreiro. A bandeira da luz mais barata é popular. Na esteira da insinuação da presidente, o governador de PE, Eduardo Campos, do PSB, volta às manchetes e primeiras páginas de revista. O líder do PSB, Beto Albuquerque, anuncia : depois do pronunciamento de Dilma, não há mais como esconder a candidatura de Campos.
Já os tucanos...
Enquanto isso, os tucanos fazem sua Convenção partidária, forma de revitalizar o ânimo das bases. José Serra reaparece na cena com seu primeiro discurso após perder a prefeitura de SP para o petista Fernando Haddad. E o que fazem os partidários do governador Geraldo Alckmin ? Lançam Serra na esfera da candidatura à presidência em 2014. Contra Aécio. Quer dizer, SP contra Minas. Nada de café com leite. Café de um lado, leite de outro. Aécio, por sua vez, abre o bico e descreve o travamento da gestão federal. Seu discurso é mero diagnóstico. Carece de propostas substantivas.
Cadê o projeto Brasil ?
Aliás, essa é a questão que bate na floresta tucana. Onde está o Projeto para o Brasil ? O que o país poderia esperar dos tucanos além de bicadas? As oposições estão travadas no âmbito do discurso. Falar por falar, denunciar por denunciar não leva a nada. Fernando Henrique apóia Aécio. Alckmin apoiaria Serra. Claro, até para poder tirá-lo de sua rota, que é a reeleição ao governo de SP em 2014.
Divisão de poder
Em política, tudo é possível. Inclusive, a entrega da prefeitura da Capital e do governo do Estado a um mesmo partido. Mas isso é algo bastante difícil. O eleitor tende a repartir o poder. Entrega a capital para ser administrada por um partido e o Estado por outro. Por isso, este consultor acha complicada a operação/intenção de Lula de eleger o ministro Padilha, da Saúde, como governador do Estado. Parece mais viável um candidato de outro partido, que não o PT. Esta agremiação, aliás, divide o eleitorado. Uma parte a ela se engaja, outra toma distância. A rejeição ao PT continua alta em SP. Mas o partido, sem dúvida, tem condições de jogar seu candidato no segundo turno.
Corrosão de material
Diante disso, surge a questão : quer dizer que é mais fácil para o PSDB ganhar o governo de SP ? Em tese, sim. Mas há um fator complicador. É aquilo que o marketing político batiza de "corrosão de material". São 20 anos de poder tucano no Estado de SP. Tempo considerado limítrofe para se constatar os primeiros sinais de desgaste da identidade. Explico : Identidade é a coluna vertebral do ator político, seja ele pessoa jurídica, um governo, seja ele pessoa física, o governador Geraldo Alckmin, por exemplo. Identidade é a soma do discurso, ações, propostas, ideários, atitudes, forma de governar, ao lado do plano estético - visual do governo, gestos pessoais, etc. Depois de muito tempo, essa composição vai ganhando tons de cinza ou de amarelo desbotado. O discurso fica velho. O eleitor quer distinguir um novo colorido na paisagem.
O jeito Alckmin de governar
Geraldo Alckmin é, como diz a linguagem dos setores médios, um gentleman. Educado, pessoa de fino trato, cordial, ou, para usar outra imagem, o perfil do sogro ideal. Ao contrário de Mario Covas, um perfil rompante, destemido, que exibia autoridade na fala e nos gestos. Covas era conhecido pela coragem de enfrentar todos os obstáculos. Partiu para cima de um grupo que o apupava na entrada da Escola Caetano de Campos. Alckmin, ao contrário, tem jeito de que é incapaz de matar uma mosca. O estilo é a pessoa, já diziam os clássicos da literatura. Pinço a observação para a política. A identidade do governo de SP leva muito dos traços pessoais de Alckmin. Suave, maneiroso, sem um tronco firme (uma coluna vertebral) que possa identificar a administração. Esse é o busílis, o entrave, que dificultará a reeleição de Alckmin.
Alternativas
O PMDB deverá fechar posição em torno de Paulo Skaf, presidente da FIESP. Trata-se de um perfil conhecido pelo ativismo e empreendedorismo. Skaf foi reeleito por unanimidade para a maior Federação de Indústrias do país. Mudou a feição da casa, transformando-a em foro de debates diários. Ali se vêem ministros, ex-ministros, grandes economistas e analistas da cena brasileira. Lidera ele grandes causas, como o barateamento do custo da energia, uma campanha da FIESP. Portanto, se for o candidato do PMDB e dispuser de um bom espaço de TV, poderá ser o meio termo entre o continuísmo tucano e o oposicionismo petista, que já ocupa o terreno municipal. Há, ainda, o nome do ex-prefeito Kassab. Trata-se de um grande articulador. Mas terá ele de quebrar grandes resistências a seu nome e redesenhar os costados da imagem. Além disso, sobraria para ele a disputa ao Senado. Também uma chance.
E Suplicy ?
Pois é, em 2014, haverá apenas uma vaga em disputa para o Senado. Eduardo Suplicy, o eterno senador petista, continuará a ter preferência ? Na visão deste consultor, trata-se de um perfil que também atravessa o corredor onde estão os materiais corroídos pelo tempo. Suplicy toparia ser candidato a deputado ? Minha impressão é de que o PT vai desviá-lo da Câmara Alta (Senado) e candidatá-lo à Câmara Baixa (Câmara dos Deputados).

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Memorial das Ligas Camponesas

O Brasil passa por uma mudança acelerada e brusca, se urbanizando e transformando o mundo rural em zona de transição, que alguns autores denominam de rururbano. A queda do poder de mobilização do MST (no ano passado tivemos o segundo menor número de ocupações da sua história), em função do bolsa família, faz com que a história de lutas camponesas (termo muito utilizado dos anos 1920 a 1960, quando o PCB era a força hegemônica no meio rural) caia no esquecimento. Basta ver os títulos do mercado editorial e estudos sobre o mundo do trabalho e se percebe rapidamente que este não é um tema em alta.
Por este motivo que o site recém criado que se dedica à memória das Ligas Camponesas tem que ser festejado.
As ligas adotaram este nome quando da criação das ligas democráticas, pelo PCB. Dirigentes rurais ou lideranças comunistas que atuavam no meio rural avaliaram que a palavra democracia era muito pomposa e de baixo entendimento e daí surgiu o nome. Nos anos 1950 o nome foi retomado, agora sob a liderança do trabalhismo, em especial, do advogado Francisco Julião. Na segunda versão, forjou-se uma cultura sólida fundada na solidariedade campesina, comunitária por princípio, absorvendo o auxílio mútuo, a caixinha para comprar querosene (para a lamparina) e madeira para caixões. Depois, veio a luta pela legalização de posse e luta contra o latifúndio. Julião foi se aproximando, gradativamente, da linha castrista e desde sempre as Ligas Camponesas conflitaram com a linha etapista do PCB. Mais tarde, a Ação Popular emergiu como outra organização que conflitou com a linha do "partidão".
Ouvi muitos "causos" de lideranças antigas das Ligas. Uma delas, deliciosa, sobre os mutirões para reconstrução de casas ou plantações que haviam sido destruídas por capangas de grandes latifundiários. Algumas lideranças do passado me contaram que passavam, de madrugada, de casa em casa, convocando camponeses para engrossar o mutirão. Se algum se recusasse por medo, era tirado a força e recebia um sino no pescoço, daqueles que colocavam no gado para não se desgarrar. O camponês contrariado trabalhava com o sino no pescoço e só podia retirar se acabasse se convertendo ou compreendendo a importância do mutirão. Quando perguntava se não se tratava de uma agressão, a resposta era sempre a mesma: se tratava de uma escola de formação de camponeses.
Para quem desejar visitar o site, acesse AQUI

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Why Did We Fire The Gun




Não conhecia a música, nem Waldeck. Mas ao ouvir a trilha da propaganda da Versace, fiquei intrigado. "Está tudo entendido", como diz a letra. Tem algo dos anos 1960, jovial, intrigante, sensual. Mais interessante, ainda, é que Klaus Waldeck é um advogado que acabou compondo música eletrônica. Na verdade, é o contrário. Ele já tocava piano com seis anos. Aos 15, quebrou seu piano. Começou a advogar e voltou para a música.  Foi para a Inglaterra e voltou para Viena, onde nasceu (já perceberam que ele vai e volta?). Sua produção de Aquarius catapultou sua carreira.

Lay down your head
And show me if you like it
Lend me your ears
And read me like a book

This conversation
It strikes me
No need for words
It's all understood

Lay down your head
And show me if you like it
Wondering if there is something
We did wrong
Nothing can stop me
From shaking
Why did we have to fire that gun

Lay down your head
And show me if you like it
Wondering if there is something
We did wrong
Nothing can stop me
From shaking
Why did we have to fire that gun
Why did we have to fire that gun
Oh why did we have to fire that gun



Sindicalização nos EUA entra em colapso


O Bureau of Labor Statistics informou que a taxa de sindicalização (público e privado) nos EUA em 2012 sofreu queda de 400.000 membros apesar de a força de trabalho empregada aumentar em 2 milhões e 400 mil. Com isso, a taxa de sindicalização do país chegou ao índice de 11,3%, nível mais baixo em 97 anos. Pior, a taxa de sindicalização no setor privado caiu para apenas 6,6 por cento no ano passado. Vale lembrar que há meio século, 35% do setor privado era sindicalizado.

Rio inaugura escola sem salas, turmas ou séries


Rio inaugura escola sem salas, turmas ou séries




O Rio de Janeiro começa, nas próximas semanas, a experimentar um novo tipo de escola. Nada de séries, salas de aula com carteiras enfileiradas e crianças ordenadamente caminhando pelo espaço comum. A aposta para dar a 180 crianças e jovens da Rocinha uma educação mais alinhada com o século 21 é o Gente, acrônimo para Ginásio Experimental de Novas Tecnologias, na escola Municipal André Urani. O espaço, que acaba de ser totalmente reformulado para comportar a nova proposta, perdeu paredes, lousas, mesas individuais e professores tradicionais e ganhou grandes salões, tablets, “famílias”, times e mentores.
Não houve pré-seleção. Os alunos que farão parte dessa nova metodologia já são os matriculados na escola antes da reforma. Mas agora as antigas séries serão extintas e não haverá mais as salas de aula tradicionais, com espaço para 30 e poucos alunos. Em vez disso, os jovens – que estariam entre o 7o e 9o anos – serão agrupados em equipes de seis membros, chamadas de “famílias”, independentemente de sua série de origem. A formação das famílias ocorrerá em parte por afinidade, a partir da escolha dos próprios membros, e em parte a pelo diagnóstico de habilidades ao qual os alunos se submeterão no início do ano letivo.Essa avaliação, que ocorre assim que eles chegarem ao Gente, pretende fazer um raio-x do estado da aprendizagem de cada um, tanto do ponto de vista do conteúdo tradicional quanto das habilidades não cognitivas, como comunicação, senso crítico, autoria. Cada aluno terá um itinerário de aprendizado pessoal, que funciona como uma espécie de playlist, só que em vez de músicas, estarão os pontos que ele precisa aprender ou desenvolver. Será o jovem o responsável por escolher a forma como o conteúdo lhe será entregue – videoaulas, leituras, atividades individuais ou em grupo. Todas as semanas os alunos serão avaliados na Máquina de Testes, um programa inteligente que propõe questões de diferentes níveis de dificuldade, para garantir a evolução no conteúdo. Quando ele não chegar ao resultado esperado, o jovem receberá uma atenção individualizada.
Tal atenção é de responsabilidade do mentor da família, o professor. Cada mentor será responsável por três famílias, que reunidas serão chamadas de equipe. “O mentor deve dar uma educação mais ampla, preocupada não só com os conteúdos tradicionais, mas com higiene, com aspectos socioemocionais do aluno, com a motivação dele”, diz Rafael Parente, subsecretário de novas tecnologias educacionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio, explicando a mudança no papel do professor naquele contexto. Em vez de dar aula de português ou matemática, o mentor vai ajudar o aluno a encontrar a informação de que precisa para entender o conteúdo, mesmo que o assunto não seja o da sua formação.Assim, explica Parente, se um professor de língua portuguesa precisar explicar um assunto mais específico de matemática, ele deve pedir ajuda para membros da família, se sentar com o aluno para assistir à videoaula da Educopedia com ele, tentar aprender junto. “O professor não vai ser mais aquele que transmite o conhecimento. Ele vai ser especialista na arte de aprender”, diz o subsecretário. O grupo de mentores que fará parte do Gente foi treinado para essa nova forma de lecionar.
Todos os dias, ao chegarem à escola, os alunos passarão por um momento de acolhida, em que compartilharão com seus pares experiências e expectativas para o dia. A jornada na escola é integral. Neste tempo, com o auxílio de seu itinerário e a liderança do tutor, cada um deverá decidir o que e em que ordem estudar e poderá, à livre escolha, se juntar a grupos de estudo de língua estrangeira, robótica, esportes, artes, desenvolvimento de blogs. É nesse momento que uma pergunta inevitável aparece: mas se o aluno não quiser fazer nada, ele não vai fazer nada, certo? Mais ou menos. Os mentores, explica Parente, estarão sempre por perto para motivar os alunos a avançarem, as avaliações mostrarão quem está ficando para trás e os integrantes da família – o tal grupo de seis – também deve incentivar uns aos outros. “Quando o aluno é protagonista do próprio aprendizado, faz suas escolhas, ele se envolve mais, se empolga mais com a escola.”
A tecnologia é outro fator importante na forma como o projeto foi organizado. Para que os alunos possam escolher entre ambiente virtual ou presencial, era preciso que todos os alunos tivessem acesso a equipamentos e internet. Por isso, cada aluno terá o seu tablet ou netbook e, quando for pedagigocamente justificável, vai poder levá-lo para casa. Todas as dependências do André Urani terá internet sem fio de alta velocidade.

A indigência intelectual travestida de humor

Eu nem pensava em postar neste espaço a depressão que vivo desde a virada do ano. Direcionei minha vida, desde os 15 anos, para tentar construir algo diferente na prática política do país, mais arejada, mais controlada pela sociedade civil, diminuindo o poder avassalador da burocracia estatal e, principalmente, a captura de tudo que é público pela sana partidária e por seus líderes não menos ambiciosos (para utilizar um termo cordial). As eleições municipais me quebraram as pernas, dado o nível de amoralidade que empesteou a pobre terra dos tupiniquins.
Mas este país tem lugar para gente que não tem limites em nada. Um país sem superego, que tudo pode, que tudo quer. E ainda utilizam princípios caros à civilização e tolerância para garantir sua intolerância e falta de respeito humano. Vejam a ilustração porca e desumana de Chico Caruso (aí ao lado), postada no blog do Ricardo Noblat, na manhã de hoje. Sei que é tão inverossímil que é melhor dar o endereço do blog do Noblat para que o internauta confira esta indigência moral e intelectual: AQUI .
Será que qualquer discussão política em nosso país tem que vir acompanhada deste infantilismo bestial? Não dá para elevar um pouco o nível, até atingir o nível da humanidade?
Cancelei minha assinatura do jornal O Globo porque, nas eleições presidenciais, os editores transformaram o jornal num panfleto eleitoral. Liguei informando (sei que foi ingênuo, mas meu fígado pedia) o motivo: se for para contribuir com alguma campanha, faço doação direta, sem intermediários. Vejo que a opinião de um assinante conta pouco, hoje, na trilha da difamação a qualquer custo, com ares de crítica.
Não dá. É o abandono de tudo o que parece mais caro à quem tem alma. Mesmo para aqueles que desprezam ou nem sabem que têm alma.


Josias de Souza sugere inapetência da oposição ao lulismo

O blog de Josias de Souza (na UOL, ver AQUI ) publica nota avaliando o modo de agir das oposições ao lulismo no Congresso Nacional. Destaca o adesismo puro à candidatura de Renan Calheiros (PMDB) à Presidência do Senado. DEM e PSDB (incluindo, surpreendentemente, o candidato Aécio Neves) se juntam à farra da candidatura oficial. Destaco uma passagem da nota:



No Senado, Renan tornou-se pule de dez sem precisar nem mesmo se declarar candidato. Crivado de acusações e denunciado pela Procuradoria no STF, o senador relaciona na sua planilha de votos a totalidade dos colegas do DEM e o grosso da bancada do PSDB. Aécio Neves, o senador e presidenciável tucano, finge-se de morto. A cinco dias da eleição, ainda não abriu o bico. Podendo aproveitar a desqualificação do situacionismo para se qualificar perante o eleitor, a oposição prefere o papel de cúmplice. Fica entendido que não há como distinguir os bons dos maus. Atirando-se um oposicionista e um governista num tanque de lodo, os dois deslizarão da mesma maneira. A indistinção e a cumplicidade confortam Dilma. Amanhã, quando o melado escorrer, ela dirá que não fez senão o que todos os antecessores faziam. Um programa mínimo de ação pré-eleitoral não daria à oposição a certeza da vitória. Mas talvez impedisse que seus líderes gastassem energias alvejando-se uns aos outros –como recomeçam a fazer Aécio e José Serra. De resto, evitaria a lamentação depois do fato, outro esporte preferido da intelectualidade tucana.
Venho procurando analisar esta lógica que passa a ser de estrutura de Estado, no caso brasileiro. A situação e oposição se acomodaram ao apartamento radical da dinâmica social das ruas e conformam uma espécie de "lealdade tácita" que só ganha cores vivas em período eleitoral, apenas para valorizar o cacife ou definir quem administra esta estrutura. O fato é que municípios são comandados por vereadores e deputados federais (ponta de uma importante articulação neoclientelista), que comandam prefeituras e se insinuam nos escaninhos de ministérios, provendo governos locais de projetos e convênios. Executivos e legislativos se tornam um mesmo poder, que se chantageiam diariamente, sempre acabando em pizza. Quando o angu desanda, surge invariavelmente um escândalo nacional. Não por outro motivo, os escândalos sempre giram ao redor de algum personagem atolado desde criancinha nesta ciranda e que perde a cabeça, humilhado pelo Rei ou desfenestrado do pódio. A denúncia mais grave vem sempre dos porões desta estrutura.
Governos oposicionistas e situacionistas nunca foram tão iguais.  Na forma, na lógica, na estampa.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Django

Começa que é um filme de Tarantino. Cinema autoral, portanto. Com direito à cérebro explodindo logo no início. E algumas referências ao western italiano (tanto música, quanto aquela aproximação, em quadros, do rosto do protagonista, numa clara citação de Django, de 1966).
É mais politizado que Lincoln, gera mais revolta no espectador, mesmo porque, o filme de Spielberg trata das tramas entre políticos profissionais (a velha Corte) e o de Tarantino desce do Planalto e retrata o jogo na sociedade. É muito mais familiar.
Tarantino chega a esnobar e cita até Alexandre Dumas, que era neto de uma escrava. Aliás, quem o cita é o Dr. King Schultz (interpretado pelo cínico Christoph Waltz), um dentista alemão que mata para recolher recompensas da justiça dos EUA. Tarantino trouxe, então, a civilidade européia para se contrapor à democracia meia sola norte-americana. Há, ainda, vários contrapontos, como a discussão do que seriam criadores da KKK, envolvendo a produção pouco caprichada do capuz (um dos militantes, mais ponderado, sugere, ao final, que deixem de lado o capuz, apenas nesta primeira vez, e só retornarem a ele depois de melhor produzido). Outro contraponto é o serviçal interpretado por Samuel Jackson. E tem, ainda, Di Caprio em ótima forma e até Tarantino que termina voando em pedaços.
Começo a achar que o maior impacto da eleição de Obama está nas artes.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O que o filme “Lincoln”, de Spielberg, não diz sobre Lincoln

Recebo um interessante artigo de Vincenç Navarro, sociólogo que foi professor da Universidade de Barcelona e que lutou contra o franquismo. O artigo leva o título de "O berço vermelho do Partido Republicano" e complementa o filme de Sipelberg (embora o artigo tente se contrapor ao filme). Complementa porque explica os sinais trocados que o filme revela entre democratas e republicanos e as divergências internas entre republicanos. Vale a pena.Para quem desejar ler o artigo completo, acesse AQUI

As ignoradas e/ou escondidas simpatias de Lincoln

Já quando era membro da Câmara Legislativa de seu estado de Illinois, Lincoln simpatizou claramente com as demandas socialistas do movimento operário, não só dos EUA, mas também mundial.
Na realidade, Lincoln considerava como um Direito Humano o direito do mundo do trabalho de controlar o produto de seu trabalho, postura claramente revolucionária naquela época (e que continua sendo hoje) e que nem o filme nem a cultura dominante nos EUA lembram ou conhecem, sendo convenientemente esquecida pelos aparatos ideológicos do establishment estadunidense controlados pela Corporate Class. Na realidade, Lincoln considerou que a escravidão era o domínio máximo do capital sobre o mundo do trabalho e sua oposição às estruturas de poder dos estados sulinos se devia precisamente a que percebia estas estruturas como sustentadoras de um regime econômico baseado na exploração absoluta do mundo do trabalho. Daí que visse a abolição da escravidão como a liberação não só da população negra, mas de todo o mundo do trabalho, beneficiando também a classe trabalhadora branca, cujo racismo ele via ser contra seus próprios interesses.
Lincoln também indicou que “o mundo do trabalho antecede o capital. O capital é o fruto do trabalho, e não teria existido sem o mundo do trabalho, que o criou. O mundo do trabalho é superior ao mundo do capital e merece a maior consideração (…). Na situação atual o capital tem todo o poder e há que reverter este desequilíbrio”.
(...) Será surpresa para um grande número de leitores saber que os escritos de Karl Marx influenciaram Abraham Lincoln, tal como documenta detalhadamente John Nichols em seu excelente artículo “Reading Karl Marx with Abraham Lincoln: Utopian socialists, Germam communists and other republicans” publicado em Political Affairs (27/11/12), e do qual extraio as citações, assim como a maioria dos dados publicados neste artigo. (...) Karl Marx escrevia regularmente no The New York Tribune, o rotativo intelectual mais influente nos Estados Unidos daquele período. Seu diretor, Horace Greeley, se considerava um socialista e um grande admirador de Karl Marx, a quem convidou para ser colunista do jornal. Nas colunas de seu jornal, Horace incluiu grande número de ativistas alemães que haviam fugido das perseguições ocorridas na Alemanha daquele tempo, uma Alemanha altamente agitada, com um nascente movimento operário que questionava a ordem econômica existente. (...) Greeley e Lincoln eram amigos. Na realidade, Greeley e seu jornal apoiaram desde o princípio a carreira política de Lincoln, sendo Greeley quem lhe aconselhou a que disputasse a presidência do país. E toda a evidência aponta que Lincoln era um fervoroso leitor do The New York Tribune. Em sua campanha eleitoral para a presidência dos EUA Lincoln convidou vários “republicanos vermelhos” a integrarem-se à sua equipe.
Na realidade, já antes, como congressista, representante de Springfield, no estado de Illinois, Lincoln frequentemente apoiou os movimentos revolucionários que estavam acontecendo na Europa, e muito em especial na Hungria, assinando documentos em apoio a tais movimentos. (...) Foi nomeado membro honorário de vários sindicatos. Em sua resposta aos sindicatos de Nova York afirmou “vocês entenderam melhor que ninguém que a luta para terminar com a escravidão é a luta para libertar o mundo do trabalho, para libertar todos os trabalhadores. A libertação dos escravos no Sul é parte da mesma luta pela libertação dos trabalhadores no Norte”.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Lincoln

"O cansaço está beliscando meus ossos". Esta frase de Lincoln, no filme que acabamos de assistir, foi uma das várias que registrei. Lincoln é retratado como um pensador, reflexivo, cerebral, obstinado pela abolição da escravidão a ponto de colocar em risco o fim da Guerra Civil. Spielberg entra no campo da política (o que me parece uma novidade, ao menos na abordagem), ressaltando a compra de votos de deputados para que votassem na Emenda 13 da Constituição dos EUA.
Daniel Day-Lewis, para mim, é o ponto alto do filme, mas sou suspeito porque gosto de tudo o que este ator faz.
Vou fugir do filme para fazer um outro comentário, que poderia parecer marginal. Assisti Lincoln na nova sala vip do cinema do Shopping Ponteio, aqui em BH. Fiquei impressionado. Uma sofisticação e qualidade de atendimento que pouco se vê no Brasil (há salas similares em SP, RJ e Brasília). Polotronas reclináveis e largas como da primeira classe de vôos internacionais, com bandejas para recebermos, já na sala de projeção, taças de vinho ou espumante, quches, chocolates ou a tradicional pipoca  (ver AQUI ).

IVC divulga venda dos jornais impressos brasileiros

Já analisei, por mais de uma vez, a queda de venda dos jornais brasileiros. Esta é uma importante pista para entendermos a linha editorial raivosa de alguns jornalões tupiniquins. Não se trata de jornalismo investigativo e fiscalizador, mas de opinião substituindo notícias, em grande parte das vezes.
O fato é que o Instituto Verificador de Circulação (IVC) divulgou anteontem que a circulação e assinatura dos jornais impressos teve aumento de apenas 1,8% em 2012, sendo que o principal fator de aumento foi a edição digital dos impressos (incluindo assinaturas).
2012 escancarou a crise dos jornais impressos. Fecharam as portas o Jornal da Tarde (São Paulo), Diário do Povo (Campinas, do Grupo RAC; o jornal foi substituído por um site fechado), O Povo (Alagoas), Marca Brasil (São Paulo/Rio de Janeiro, do Grupo Ejesa, que edita o Brasil Econômico e Portal iG), Meia Hora SP (também do Grupo Ejesa, publiação com apenas sete meses de vida). Já tínhamos presenciado o fechamento da Gazeta Mercantil, Estado do Paraná e Jornal do Brasil.
Fora do país, temos casos surpreendentes de crise envolvendo El País, The Gardian e Usa Today.
Afirma-se que nos EUA a internet teria diminuído em 30% os leitores de jornais impressos.
Parte da grande imprensa procura, ainda que timidamente, politizar esta queda de vendas, repercutindo a "perseguição" realizada pelo governo argentino. Uma possível estratégia de marketing, procurando garantir seus leitores fiéis, mais antigos, que possuem perfil de renda e ideológico mais nítido.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Eleições corruptas e infantis

Ainda vivo o impacto das eleições municipais do ano passado. Há limites para tudo na vida. Nem sempre é preciso seguir as orientações budistas e chegar ao caminho do meio, mas o limite é sinal de maturidade, de autocontrole. Contudo, a política brasileira se infantilizou. Não há autocontrole algum. Uma criança em loja de brinquedos vai para casa chorando porque não conseguiu o último modelo que descobriu que existia naquele momento. Candidato municipal nem chora. Quer tudo e faz o impensável para conseguir.
Confesso que fiquei enojado. A falta de informação e o descaso com a política faz do brasileiro comum um incauto. Não imagina a degradação a que se chegou.
Começa com o fim do império da lei como orientador do processo civilizatório. A lei impedia uniformização de cabos eleitorais. As campanhas mais ricas disputaram modelitos coloridos, com direito a boné, calça combinando com camiseta multicolorida e bandeirolas. Não é preciso dizer que a lei impedia compra de votos. Aí está o efeito mais devastador desta política emporcalhada. Justamente nas regiões com maior pobreza e exclusão de traços de humanidade é que o político sem caráter atua de forma mais faceira, como diriam os gaúchos. Compra-se com festas, churrascos, com celulares (o objeto de desejo dos consumdores emergentes) e em espécie. Igrejas são disputadas. Deputados federais e lobistas alimentam as arcas de ouro que compram tudo e todos. A tesouraria centralizada já indica como funcionará a política local depois das eleições: candidato que sai da linha ou aparece muito, tem a verba de combustível cortada. É estrangulado diariamente, até ceder. Pior: existe hoje um submundo da eleição (se é que existe um mundo acima) que envolve toda espécie que não tem conhecimento do que é caráter. A começar pelo que se denomina pomposamente de "contra informação". Toda espécie de sabotagem que faz lembrar filmes policiais que revelam que a diferença entre bandidos e mocinhos é coisa do passado. Fazem de tudo. A começar pelas sabotagens mais infantis, como roubar material de campanha durante a madrugada e jogar tudo num galpão. Ou ainda criar uma legião de fakes na internet para atacar a honra, intimidar, destruir qualquer traço de convivência entre diferentes. São meliantes da comunicação que gostam de jogar pesado, como gigolôs que mantém um olhar superior por administrar um harém ilegal.
Os sinais de riqueza ilícita são evidentes. Carros novos importados chegam aos borbotões nas cidadezinhas e todos sabem seu destino. Viagens para Europa, festas nababescas, orgias. Tudo é comentado no facebook. Nada os inibe.
Não sei onde chegaremos, já que o limite é apenas uma palavra para esta degradação generalizada. De minha parte, estou enojado até agora. Superou qualquer nível de tolerância que eu artificialmente tentava impor. Virei um ET. Não reconheço esta lógica e temo cair na vala comum dos brasileiros normais. Eles preferem ignorar, acreditar que se trata de um mundo ao lado, que tem relação com a vida comum, mas que é melhor sublimar. Afinal, até Freud admitiu que sublimar é saudável (mesmo contestando esta tese no início de seus estudos). O problema é que, assim, deixamos livre o que há de pior na nossa espécie.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Suicídio entre idosos

O suicídio de Walmor Chagas levantou o tema que sempre me perturbou, desde o suicídio de Pedro Nava, aos 80 anos de idade. O artigo de Cláudia Colussi (publicado na Folha) matou a  pau. Vou reproduzir alguns excertos do artigo de Cláudia:

Estima-se que cerca de 9.000 pessoas se suicidam por ano - o que dá uma média de 24 casos por dia. A taxa, que mede o número de mortes a cada 100 mil habitantes, é de 4,5, bem inferior a países como Japão e EUA (34,1 e 10,4, respectivamente).
Mas o Brasil esconde variações significativas. Entre as mulheres, a taxa oficial é de 1,9. Já entre os homens é de 7,1. Entre idosos acima de 75 anos, o índice passa dos 15.

PESQUISA FIOCRUZ

Dos 50 municípios brasileiros com os índices mais elevados de mortes, 90% estão no Sul. 
Outra constatação foi que 51% dos suicídios de idosos ocorrem em casa. 
Outro ponto da pesquisa que chama a atenção: 67% dos idosos que cometeram suicídio estavam em atendimento em serviços de atenção primária nos últimos 30 dias de vida e até meia semana antes de cometerem o ato.  
Os pesquisadores também constataram que famílias, parentes e amigos muitas vezes não levam a sério as intenções de suicídio, mesmo quando explicitadas verbalmente. E, no caso dos idosos, elas podem ser mais rapidamente colocadas em prática do que entre os mais jovens.

ARTIGO ASSINADO POR LIANA PINTO, SIMONE DE ASSIS E THIAGO DE OLIVEIRA PIRES SOBRE SUICÍDIO EM PESSOAS ACIMA DE 60 ANOS NO BRASIL ENTRE 1996 E 2007 PODE SER ACESSADO AQUI

Dilma, Lula e Eduardo Campos

A última versão do Porandubas Políticas, editado por Gaudêncio Torquato, está singularmente recheado de avaliações e notícias importantes. Selecionei uma sequência de notas sobre os bastidores da movimentação de Dilma, Lula e Eduardo Campos. Gaudêncio compartilha minha análise que a situação de Aécio Neves é cada vez pior (embora Gaudêncio não diga isto com todas as letras).


Campanha nas ruas 
2013 está sendo aberto pela ventania de 2014. A presidente Dilma Rousseff decidiu sair da toca. Começou a campanha da reeleição pelo Nordeste. Coisa planejada. Pois é a região que melhor avalia o desempenho da mandatária, na esteira de grande admiração que o povo tem por Lula, considerado pelos nordestinos O Pai dos Pobres. Dilma, nos últimos dias, correu Estados, olhando canteiros de obras, puxando a orelha de gestores, vestindo gibão de couro, abraçando um, cochichando com outro. A visita ao NE faz parte de sugestões feitas por Lula.
Destravamento da gestão
Diz-se, à boca pequena, que Lula teria aconselhado sua pupila a destravar a gestão. São evidentes os sinais de que a administração federal está emperrada. De cerca de 80 obras ligadas à Copa, apenas umas 5 estariam atendendo ao cronograma. Há queixas contra o estilo centralizador da presidente. O medo campeia na Esplanada dos Ministérios. Ministros temem tomar decisões, principalmente quando estão envolvidos altos volumes de verbas. A liturgia da benção é cobrada com muito rigor : os pedidos entram pelos vãos da Casa Civil, sobem aos olhos da ministra Gleisi, que consulta seus técnicos e, depois de tudo isso, caem sobre a mesa da presidente.
Quem manda na fazenda ?
O empresariado, à vista do calendário defasado de obras e contemplando as querelas internas no Ministério da Fazenda, põe o pé no freio. Os investimentos entram em refluxo. Quem manda na Fazenda ? Guido Mantega ? Não é a percepção dos empresários. Nelson Barbosa, o secretário-executivo ? Pode ser, mas, nos últimos tempos, o Arno Augustin (é o que se ouve) passou a ser a extensão do pensamento da presidente. Há uma disputa intestina em torno da cadeira hoje ocupada por Mantega. Barbosa seria o sucessor natural, mas teria perdido a força extraordinária acumulada ao longo dos últimos anos. Há quem veja em Nelson Barbosa uma faceta mais ligada ao mercado; e há quem identifique em Augustin a faceta colada no Estado mais intervencionista.
Dilma e os empresários
Um dos conselhos de Lula para Dilma teria como foco articulação mais intensa da presidente com os empresários. De fato, nas últimas semanas, observou-se uma agenda mais voltada para setores produtivos. Grandes empresários teriam sido convocados para uma conversa com a presidente, sob temáticas abrigando investimentos, infraestrutura, concessões, PPPs, etc.
Campos desenha a esfinge
Também é fato que o governador Eduardo Campos, de PE, que preside com mão de ferro o PSB, abriu agenda de articulação com o alto empresariado nacional. Estaria buscando apoio e simpatia para sua eventual candidatura à presidente da República em 2014. Campos foi o maior beneficiário do pleito municipal. Seu partido pode ser considerado o maior vitorioso. Conta, hoje, com cerca de 500 prefeituras. E domina espaços importantes, inclusive algumas capitais. Pernambuco, por seu lado, foi transformado, no ciclo lulista, em grande canteiro de obras. Daí a boa avaliação interna do governador socialista. Que aprecia vestir-se de esfinge.
Morde e assopra
Eduardo Campos morde e assopra. De um lado, faz fortes críticas às diretrizes econômicas da administração federal, assume a vanguarda da luta pela repactuação da Federação - visando maior equilíbrio entre os entes federativos - pede mais agilidade no processo decisório. De outro lado, reafirma seu apoio incondicional (?) à reeleição da presidente Dilma em 2014. E lembra : a porta deve ter uma fresta aberta para permitir eventual voo próprio em 2014. O que segura Eduardo Campos na base governista é a interrogação que se faz sobre os horizontes econômicos. Se a locomotiva descarrilar, ele pulará fora do trem e sairá como candidato em 2014. Se o bolso das massas continuar suprindo bem o estômago, Dilma não será abalada. Nesse caso, o neto de Miguel Arraes permanecerá no trem situacionista. Com os olhos contemplando a paisagem de 2018.
Aécio e Eduardo
Fala-se também numa chapa envolvendo Aécio Neves e Eduardo Campos. Seria possível ? Em política, tudo é possível. Ocorre que Eduardo Campos teria melhores chances como cabeça de chapa do que Aécio Neves. Agregaria mais partidos situacionistas. Aécio ficaria sob o escudo exclusivo do PSDB. Até o DEM pensa em abandonar a parceria com os tucanos. Agora, para Eduardo Campos, o melhor cenário seria o de quatro candidaturas : a situacionista (Dilma), a oposicionista (Aécio), a dele, com uma marca de independência no meio, e uma alternativa, como a da Marina Silva, por exemplo. Claro, esse cenário só seria favorável a ele na perspectiva de uma economia no fundo do poço.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Na época que Gilberto Gil era gênio

Para não dizer que não postei minha foto

Minha mãe, meu irmão e eu.... no casamento do Thi

IPEA analisa programa Brasil Carinhoso

BNDES é o carro chefe do "fordismo tupiniquim"

O BNDES acaba de divulgar que liberou 156 bilhões para projetos industriais e de infraestrutura (65% do total dos recursos liberados) em 2012. Desembolso recorde, 12% superior ao liberado em 2011. Energia elétrica e transporte rodoviário foram os destinos prioritários para investimentos em infraestrutura.
Segundo a UOL:

Segundo o banco, a tendência para 2013 é de aceleração dos investimentos com o crescimento no número de consultas (60%) e projetos aprovados (58%) ao longo de 2012, na comparação com o ano anterior. As consultas somaram R$ 312,3 bilhões e as aprovações, R$ 260,1 bilhões. Na Indústria, o crescimento das consultas foi liderado pelos segmentos extrativo (R$ 32,2 bilhões), química e petroquímica (R$ 23,3 bilhões), material de transporte (R$ 15,4 bilhões) e metalurgia (R$ 11 bilhões). Na Infraestrutura, o destaque foi energia elétrica, com consultas de R$ 29,5 bilhões e aprovações de R$ 38,6 bilhões, seguido por transportes rodoviário (R$ 19,6 bilhões), outros transportes (R$ 17,6 bilhões) e telecomunicações (R$ 9 bilhões).
Não há dúvida que o BNDES se configura como principal instrumento - aliado à política de crédito e aumento real do salário mínimo - do modelo de estabilidade produção-consumo das políticas anticíclicas do fordismo tupiniquim.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A posse de Obama

Adam Nagourney publicou, hoje, no The New York Times que o discurso de Obama para esta segunda posse foi mais contundente do que se poderia imaginar. Reafirmou o compromisso com a luta contra a desigualdade e os programas sociais. Também reforçou a preocupação com a mudança climática (que deu o tom de liderança, de protagonismo em relação à agenda mundial) e mencionou diretamente o movimento social pelos direitos dos homossexuais. Toda posse tem seu simbolismo e esta também teve o seu toque com o poeta hispânico homossexual Richard Blanco recitando um poema sobre igualdade.
Em 2009 foram 1,8 milhão de pessoas à sua primeira posse. Desta vez, foram 800 mil.
Discurso e número de presentes na posse dizem tudo.
A campanha midiática de 2008 fugiu do controle da coordenação de campanha. Obama foi tomado por todas minorias. Latinos faziam músicas para sua campanha e postavam no youtube. Nada se vinculava à campanha oficial. Acabou que o personagem foi catapultado a algo maior que o legado dos Kennedy. E Obama nunca foi isto tudo. Seus colegas de faculdade sempre disseram que se tratava de um conciliador charmoso. Todo conciliador é comedido porque procura dar espaços para os extremos, transformando-os. Ora, de tão atento ao discurso dos outros, é comum que seu discurso se confunda com a mediação. Uma personalidade mediana, enfim.
Enfrentou a crise de 2008, parecia retomar o New Deal, mas fraquejou. Dois momentos o recolocaram no eixo democrata: a intervenção na economia, para salvar os dedos do sistema bancário, e o programa nacional de saúde. Paul Krugman lembrou, em artigo publicado hoje em todo mundo, que o vice-presidente Joe Biden havia dito que o Affordable Care Act (a lei de reforma da saúde) tinha sido um "big deal" (um trocadilho, obviamente, embora signifique uma importante conquista).
No final do primeiro mandato, Obama recebeu um outro elemento de seu discurso democrata: a luta contra a indústria de armas, a partir do massacre (mais um na terra de Obama) na escola Sandy Hook, em Connecticut. Mais um simbolismo. Porque o que está em jogo naquele país não é exatamente a saúde ou o combate à venda de armas para civis. O que está em jogo é o papel do Estado. Como o mundo ficou mais conservador neste novo século, Obama enfrenta o ultraconservadorismo do Tea Party. A tese da "curvatura da vara" de Lênin, neste caso, leva a marca do moderado líder negro: não chega a radicalizar para o outro lado, mas faz algum esforço para trazer a cultura política para o centro. Ocorre que o ultraconservadorismo pautou por tanto tempo os EUA que até a moderação é acusada de esquerdismo.
Obama, de qualquer maneira, agora é mais ele mesmo que em 2009. Tem a chance de ser um liberal moderado que lidera um país ferido em seu orgulho por já não ser a economia pujante que o marcou desde os anos 1930. Orgulho ferido sempre é um péssimo conselheiro político. Por este motivo, mesmo sendo agora o verdadeiro Obama, tudo o que fizer será sempre acusado por grande parte dos EUA como radical, socialista, estatizante e anti-americano.
Mas não será nem sombra de Kennedy, nem Clinton, muito menos Martin Luther King Jr.
Será Obama. Pela primeira vez.

Partidos em queda

Pesquisa IBOPE, encomendada pelo jornal O Estado de S.Paulo no final de 2012, revela que 56% dos brasileiros não possuem preferência partidária no Brasil. O desencanto tem sentido, dada a ausência total dos partidos na vida diária dos tupiniquins. Soma-se o fato dos partidos se tornarem organizações e estruturas pretéritas, burocráticas, centralizadas, compartimentadas, lentas, sem inovação, que massificam diretrizes e pouco respeitam as opiniões de grupos e indivíduos. São representações do século XIX (embora criação do século XVIII). O mundo é outro, para citar uma frase pronta e batida.
Dos 44% que afirmam possuir preferência partidária, a agremiação mais citada é o PT, contando com 24% das citações. PMDB vem logo depois, com 6% e 5% das preferências. A diferença é abissal, como se percebe. 
A situação do PSDB  parece a mais grave, já que os pesquisados associam a sigla aos mais ricos. De 1995 a 2012, a preferência nacional pelos tucanos foi de 14% para 7% no Sudeste, tradicional reduto de políticos tucanos alçados ao plano nacional, especialmente São Paulo e Minas Gerais. Ainda assim, estes estados parecem continuar concentrando a base mais importante para a sigla, já que os patamares de preferência baixam a 5% no Norte e no Centro-oeste, 4% no Nordeste e 3% no Sul.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Gratidão e Fé

Ontem foi o casamento de meu filho, Thiago. É algo previsível para os pais, mas quando ocorre, mesmo com todos os planos construídos meses antes, somos pegos de surpresa. A surpresa não é a roupa, o penteado, a ordem de entrada, nem a cerimônia. O formal é o mais esperado. Tudo começa a ganhar aquele viço do inesperado quando meu filho vê sua noiva entrando e abaixa o rosto, tentando conter a emoção. Acho que ver um filho chorar, de felicidade ou tristeza, mexe com o fundo da alma de qualquer pai. O que os filhos possivelmente não compreendem é que pai procura sentir, por antecipação, o que os filhos vivem. Obviamente que não conseguimos, porque estamos querendo controlar as situações, mas acabamos exercitando mecanicamente este movimento de encarnação e controle. Não é preciso dizer que é uma luta interna, com resultado esperado.
Quando meu filho já não continha mais as lágrimas, eu desabei.
Esta história de "perder um filho quando casa" nem frase feita é. Pai nunca perde filho.
O que ocorre é um misto de imagens. Um ciclo novo. Novas expectativas. Justaposição do filhão casado e do filhinho que eu levava para a creche, a cabeça toda molhada de suor, dormindo enquanto eu subia o morro da Aclimação. Thiago tinha o cabelo quase branco e o que mais lembro desta fase era o sorriso aberto, acompanhado das convinhas que se formavam nas bochechas.
Os sentimentos que consigo verbalizar são os de gratidão e fé. Gratidão por ter podido viver toda esta história, desde que ele nasceu e batia com força na sonda que os médicos colocaram para limpar seus pulmões. Batia forte para declarar a personalidade do bichinho. A gratidão é sempre acompanhada da fé. Porque não tem sentido ser grato à vida se não tivermos fé nas pessoas que estão conosco. Esta é a dupla que gera a gratuidade. Viver e agir sem pensar em qualquer retorno.
Desabei quando Thiago nasceu e vi batendo na sonda, raivoso. Ali eu percebi que não tinha, efetivamente, qualquer controle sobre o que ele faria. Continuei tentando me antecipar. Acho que consegui raríssimas vezes. Ali no altar,o círculo se fechou: tentando me antecipar quixotescamente e meu filho continuava dando mostras que era em vão. E aí está a gratuidade de ser pai. E fortalece a gratidão.
Vai ser gauche na vida, filhão.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Eliane Catanhêde escorregou para a fofoca

É verdade que não há muita pauta quente no início do ano. Mas um jornalista experiente sabe que não deve se confundir com chefe de cerimonial. Aquele estilo que começa a detalhar a cor de gravata, o braço cruzado, a caneta que herdou do pai para assinar o termo de posse, essas bobagens no mais puro estilo Caras. Sei que a falta de assunto é fogo. Mas foi patética a jornalista se preocupar com quem o prefeito eleito convida para suas reuniões. O mandatário é ele e, a despeito do seu desejo, tem um poder muito superior à da jornalista, porque consagrado no sufrágio universal. Se a mãe, a esposa ou Lula participam da reunião de governo não interessa em nada ao cidadão sério. O que interessa é o que discutiram e aprovaram. Algo que a crônica de Eliane se esqueceu. Porque está mais para colunismo social que para análise política.
Assim caminha a fraca imprensa tupiniquim.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Maluf comanda a política habitacional do governo Haddad


Já não dá para escamotear. A lógica lulista incorporou o malufismo: o deputado federal Paulo Maluf (PP) emplacou afilhados políticos em sete das oito diretorias da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo). A questão é saber se o malufismo é mera "zona de influência lulista" ou o inverso. Mas que os dois andam de braços dados, não há mais dúvida.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O impacto do fordismo lulista na estrutura da sociedade brasileira

Socializo, abaixo, o início do terceiro capítulo do ensaio que estou redigindo sobre o fordismo lulista.


3. Sociedade fragmentada

 O fordismo brasileiro formulado pelo lulismo é tardio. Não ocorre nas condições de consolidação da sociedade de massas dos EUA (no período 1930-1950) e muito menos da Europa do pós-guerra.
O modelo societário imposto pelo fordismo europeu foi fortemente influenciado pelos partidos modernos, de massa e operários, que se inscrevem na lógica política do século XIX e que desaguam, já na segunda metade do século XX, no modelo neocorporativo. Trata-se da inclusão das estruturas sindicais superiores (centrais sindicais, federações e sindicatos nacionais) em arenas de negociação e elaboração da agenda nacional, forjando mecanismos institucionalizados de participação na tomada de decisões governamentais. O neocorporativismo foi além desta mera participação na tomada de decisões e avançou sobre um modelo peculiar de cogestão pública, uma coalizão governista de alta complexidade. Em outras palavras, o fordismo europeu incorporou interesses organizados ao processo político-estatal. Na definição original de Philippe Schmitter [1], o neocorporativismo forja um sistema de representação de interesses estruturada em um número limitado de categorias não competitivas, reconhecidas pelo Estado, conferindo o monopólio da representação. Constitui-se, assim, uma elite política nacional que estrutura o corporativismo estatal[2]. Algo que supera as negociações de interesses setoriais. Um modelo tipicamente social-democrata, bem sucedido nos países escandinavos e na Alemanha, dirigido pela hegemonia conquistada  nos parlamentos, mas também envolvendo a Áustria, Holanda e Bélgica num modelo similiar, mas que não dependeu da hegemonia socialdemocrata no parlamento[3]. Com a precarização dos direitos trabalhistas e a desestruturação do Estado de Bem-Estar Social europeu, Cawson[4] sustenta que o neocorporativismo clássico fundado na cooperação entre interesses a partir da tutela do Estado (também denominado pelo autor de “macrocorporativismo” por tratar da agenda nacional), foi substituído pelo mesocorporativismo, fundindo processos intermediários de interesses (agenda restrita).
Ocorre que no Brasil, a ascensão do fordismo lulista é arquitetado justamente num período de superação da agenda minimalista (neoliberal ou gerencial, onde os objetivos e lógica de gestão empresarial são absorvidas pelos gestores estatais) e reintrodução da cartilha keynesiana de ações anticíclicas. O que interessa a este ensaio é observar que a forte influência do sindicalismo europeu sobre o ideário lulista acaba por recriar o neocorporativismo europeu sob uma roupagem inusitada, criando uma sociedade política dual[5], onde a representação sindical e corporativa de maneira geral não se articula necessariamente com a cultura fragmentada da sociedade civil do período. Neste sentido, o fordismo tardio brasileiro acomoda a estrutura política neocorporativa à fragmentação societária hipermoderna ou individualista.
O fordismo norte-americano, por seu turno, adota a lógica societária que, sugiro, se aproxima do outro polo do fordismo tardio brasileiro.
A sociedade norte-americana é marcada pelo individualismo, pelo pragmatismo e pelo antiestatismo. Muitos autores clássicos destacaram este ideário societal, de Tocqueville a Max Weber, passando por Karl Marx e Leon Trotsky. A ausência de resíduos feudais, o individualismo representado na ampla classe média, o nível salarial acima do europeu e o papel da ética do trabalho (e consumo) como resultado do protestantismo se aliaram à desconfiança em relação ao poder central dos fundadores da nação e formuladores da Constituição Federal. O federalismo estadunidense funda-se em contrapesos que procuram diluir o poder central como lócus da regulação social. Um ideário que se espraiou sobre organizações da sociedade civil, partidos políticos e sindicatos.
Os partidos de trabalhadores norte-americanos apoiaram-se numa agenda que reivindicava mais o igualitarismo fundado num sistema universal de educação de massas que na luta de classes ou conflito por interesses de classe[6]. Não se tratava de igualitarismo em função da renda, mas da “garantia de barganha competitiva dentro do capitalismo”[7].
As organizações sindicais mais combativas eram anarquistas e se apoiavam em forte preservação do indivíduo e total estranhamento em relação às instituições públicas. Lideranças sociais também desconfiavam do ideário da esquerda europeia. Nos anos 1960, o movimento libertário liderado por jovens (e suas organizações, como a Students for a Democratic Society) criticava acidamente tanto a socialdemocracia (estruturada a partir da hipertrofia da burocracia estatal) e o stalinismo estatal. O ideário libertário transitava entre o anarquismo, o pacifismo e o radicalismo democrático que, no caso, significava a garantia da liberdade individual e a limitação do controle das instituições de representação (e até das comunidades) sobre a autonomia dos indivíduos.


[1] O autor desenvolveu o conceito ao longo dos anos 1970. Ver SCHMITTER, Philippe C., Interest conflict and political change in Brazil. Stanford, Stanford University Press, 1971; e "Still the century of corporatism?", ira P. C. Schmitter. & G. Lembruch (eds.), Trend toward corporatist intermediation. Beverly Hills & Londres, Sage Publications, 1979.
[2] Segundo Schmitter, ao contrário do corporativismo societal, cujas demandas endereçadas ao Estado não afetam a autonomia e independência dos atores sociais, o corporativismo estatal tem no Estado seu protagonista, absorvendo, arbitrando e domesticando os atores envolvidos no processo de construção e gestão de políticas públicas. O arbítrio e domesticação como ação estatal aparecem como formulação teórica nos estudos de Lehmbruch, como intermediação, que se aproxima mais do projeto lulista. Ver LEMBRUCH, G. “Concertation and the structure of corporatist networks“, In GOLDTHORPE. J. H. (org.). Order and conflitct in contemporary capitalism. Oxford University Press, 1988.
[3] Ver Keller, Wilma. “Neocorporativismo e Trabalho: a experiência brasileira recente”, In São Paulo em Perspectiva, São Paulo, Fundação SEADE, 9 (4), 1995, páginas 73 a 76.
[4] Ver CAWSON, A. “Varieties of corporatism: the importance of the meso level of interest intermediation”. In CAWSON, A. (org.) Organizized interests and the state: studies in meso-corporatism. London, Sage Publications, 1986.
[5] Conceito já explicitado na introdução deste ensaio.
[6] Ver LIPSET, Seymour Martin & MARKS, Gary. Por que não vingou? História do socialismo nos Estados Unidos. Brasília, Instituto Teotônio Vilela, 2000, p. 20 e seguintes.
[7] LIPSET, Seymour Martin & MARKS, Gary, op. cit., p. 21.