quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sé vacante


Prefeitura de BH nas mãos do PSDB

A história que Aécio faria de Lacerda um refém e daria o filé mignon do seu secretariado ao PSDB, ao que tudo indica, tinha fundamento.
O secretariado anunciado hoje pelo prefeito de Belo Horizonte (do PSB), definiu: 4 secretarias para o PSDB e três para o PSB. Ocorre que as secretarias que os tucanos levaram são muito potentes e eram reduto de petistas há quase duas décadas (políticas sociais e saúde, por exemplo). PSB ficou com a educação (embora o PT tenha feito a maioria dos secretários desta pasta, o PSB já foi titular com a professora Maria Céres Pimenta Castro). A avaliação de vários socialistas é que Sueli Baliza é indicação de Aécio Neves. E ainda citam a regional Barreiro, reduto operário e de eleitores petistas, que ficou com Aécio. Claro como água: Aécio quer desbaratar a estrutura petista instalado na Prefeitura.
Por outro lado, o PSB já discute a possibilidade de entrega de cargos que ocupam no governo federal e avalia que Marcio Lacerda se filiará ao PSDB para ser candidato em 2014.


SECRETARIAS TEMÁTICAS
Governo - Continua Josué Valadão (PP)
Saúde - Continua Marcelo Teixeira (PSDB)
Planejamento - Leonardo Paolucci (sem partido)
Assuntos Institucionais - Continua Marcelo Abi-Saber (PSB)
Desenvolvimento - Custódio Matos (PSDB)
Educação - Sueli Baliza (PSB)
Obras e Infraestrutura - Continua José Lauro Nogueira (sem partido)
Meio Ambiente - Carla Vasconcelos (sem partido)
Finanças - Marcelo Piancastelli (sem partido)
Política Sociais - Gláucia Brandão (PSDB)
Serviços Urbanos - Daniel Nepomuceno (PSB)
Esportes e Lazer - Bruno Miranda (PDT)
Segurança Urbana e Patrimonial - Hélio Santos Junior (PSDB)
Extraordinária para a Copa do Mundo - Camilo Fraga (PSD)
Chefe da Assessoria de Comunicação Social - Continua Regis Souto (sem partido)
Controladoria Geral do Município - Continua Cristiana Fortini (sem partido)
Procuradoria Geral do MunicÍpio - Continua Rúsvel Beltrame (sem partido)

SECRETARIAS REGIONAIS
Barreiro - Wanderley Araújo Porto Filho (PSDB)
Oeste - Continua Neusa Fonseca (sem partido)
Pampulha - Continua Humberto Pereira de Abreu Junior (PSDB)
Leste - Elson Matos Costa (PTB)
Nordeste - Geraldo Magela Luzia da Silva  (PPS)
Noroeste -Cristiano Lamas Pereira (indicação PSD, PTN  e PSDC)
Norte - Elson Alípio Junior (PR)
Venda Nova - Cláudio Sampaio (PRB)
Centro-Sul - Ricardo Ângelo (PV)

FUNDAÇÕES
Cultura - Continua Leônidas José de Oliveira (PSB)
Zoo-botânica - Jorge Espeschit (PPS)
Belotur - Continua Mauro Werkema (PSB)
BHTrans - Continua Ramon Victor César (PSDB)
Prodabel - Haldley Campolina Vidal (PTdoB)
Urbel - Continua Coronel Genedempsey Bicalho Cruz (sem partido)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Lula e o PSB

O internauta que visita este blog sabe que acompanho o Porandubas Políticas, análise produzida por Gaudêncio Torquato. Além de bem humorado, Gaudêncio escreve no estilo twitter, frases pequenas e impactantes, é bem informado e não se esconde do risco de projetar cenários. É uma boa fonte de informação e reflexão sobre os embates entre partidos e personagens da nossa política.
No boletim divulgado nesta semana, que reproduzo alguns trechos logo abaixo, sugere que Lula procura rachar o PSB e antecipou o lançamento de Dilma à reeleição para colocar uma pá de cal nas especulações que ele se lançaria à sucessão da Presidente. Finalmente, sugere que Dilma é favorita nas eleições de 2014 e que os governos tucanos estão desgastados (em especial, São Paulo).
Minha dúvida diz respeito à antecipação da candidatura de Dilma. Não me parece que Lula teria necessidade de desmontar as especulações a respeito de seu nome e possível candidatura. Pelo contrário. Até mesmo para segurar o PSB, as especulações neste sentido não seriam de todo ruins. O próprio Gaudêncio sugere que Dilma é a favorita para as eleições do próximo ano, o que não estaria afetada pela sombra de Lula. Aliás, do ponto de vista simbólico, projetar Lula como um guardião geral, inclusive do governo federal, pode reforçar o voto em Dilma.
Ainda acredito que o problema foram os sinais negativos de nossa economia. Antes que se formasse uma onda, abriram a caixa de bondades (energia elétrica e bolsa família) na sequência do evento de aniversário do PT e início da Caravana da Cidadania de Lula (começando sugestivamente pelo nordeste). Um encadeamento bem lógico, não?
Mesmo assim, avalio que a polarização com o PSDB é mais urgente para a candidatura de Aécio que para Dilma. Aécio diminuiria, assim, os espaços para crescimento de Eduardo Campos e Marina, sem atacá-los, justamente porque ele necessita crescer no nordeste e se consolidar como anti-lulismo (ou anti-petismo). Se não ocorrer esta polarização, tende a ficar onde está e mesmo que Campos e Marina tirem votos de Dilma, dificilmente crescerão a ponto de colocar em risco a candidatura lulista. Assim, haveria até o risco de tucanos amargarem um terceiro lugar nas eleições presidenciais. As três candidaturas (Aécio, Campos e Marina) teriam que crescer muito para colocar em risco a eleição. Mas não parece tarefa fácil. As políticas de fomento e transferência de renda ainda geram alta popularidade do lulismo na região. No sudeste, o PT aumentou o número de prefeituras e massa de votos em 2012.
Enfim, é possível que Lula esteja preocupado com Campos, efetivamente. Mas é preciso ter cuidado. Acredito que por este motivo, Gaudêncio destacou, neste seu último Porandubas, a velha máxima de Maquiavel sobre a astúcia da raposa e a força do leão. São dois predicados de um bom Príncipe. Mas o melhor é não necessitar do uso da força, apenas ameaçando com astúcia.



Campanha na rua
Lula antecipou o processo de 2014 ao lançar Dilma candidata à reeleição. O que o comandante petista quis dizer com essa antecipação ? Ponto um : que não topa uma campanha "Volta, Lula" ; ponto dois : Dilma é a candidata do PT e as alas petistas precisam dar um basta às arengas ; ponto três : os partidos da base, desde já, são convocados a perfilar ao lado da candidata ; ponto quatro : vamos ter de enfrentar novamente os tucanos e vamos derrotá-los mais uma vez. Essa é a moldura que se desenha em uma primeira leitura. Mas há quem discorde dessa projeção.

Outra leitura
Pibinho, economia em baixa, administração travada, Dilma centralizadora, ministérios sem autonomia para decidir sobre coisas mínimas - esse é o pano de fundo que pode desestabilizar a candidatura da atual presidente. Nesse caso, o "Volta Lula" ganharia sentido e força. Pois bem, não são poucos os analistas que fazem essa segunda leitura. Por acreditarem que o ex-presidente ainda não desgrudou das amarras do Palácio do Planalto. Respira política 24 horas. Começa, agora, a correr o país, a partir de Fortaleza, para onde irá, amanhã.


O racha no PSB
Lula quer rachar o PSB. Está chateado com seu amigo, "irmão mais novo", Eduardo Campos, que mostra, a cada dia, intenções de vir a ser o candidato socialista à presidência em 2014. Campos está muito bem avaliado no Nordeste. E começa a penetrar nos espaços do Sudeste. Encarna a alternativa de mudança, eis que os tucanos sofrem o fenômeno "desgaste de material". Campos promete dar apoio ao governo até o final do ano. Se a economia voltar a subir, o governador pernambucano pode permanecer na base governista. Mas, os seus correligionários dizem, à boca pequena, que a decisão já está tomada.


Perdendo, ganha
Eduardo Campos sabe que a menor distância, em política, nem sempre é uma reta, mas uma curva. Se for candidato e perder, poderá usufruir, mais adiante, a visibilidade alcançada em 2014. Por isso, mesmo perdendo ele ganhará. Seu potencial de crescimento é maior do que o de Aécio Neves. De qualquer forma, ele será decisivo, eis que a campanha de 2014 desembocará no segundo turno. As projeções mostram que o cenário poderá comportar quatro candidatos : Dilma, Aécio, Campos e Marina.


Cenários
Dilma continua sendo a favorita. Mesmo com economia em baixa, ela tem condições de sustentar o bolso das margens sociais, garantindo, dessa forma, a geografia (anatomia) do voto : bolso, barriga, coração, cabeça. Bolso com dinheiro significa geladeira cheia e estômago saciado; estômago saciado implica coração agradecido; coração agradecido sinaliza cabeça decidindo a favor da candidata das bolsas/bolsos. Ganhar no primeiro turno, isso seria difícil. Aécio teria a vantagem de fechar o segundo maior colégio eleitoral do país, MG, com seus 15 milhões de eleitores. E ainda contar com a alavanca de Geraldo Alckmin, em SP ; de Beto Richa, no PR, e de Marconi Perillo, em GO. Mas esses governadores teriam boas performances ? Essa é dúvida.


Tucanos desgastados
Em SP, Alckmin terá grandes dificuldades de superar o que se chama de "desgaste de material". São 20 anos de tucanato. A segurança pública será o carro chefe dos discursos. A violência se expande em SP. De qualquer maneira, os tucanos podem contar com 30% dos votos, índice que também é o do PT. Um terço petista, um terço tucano e um terço para o candidato alternativo à polarização. No PR, Beto Richa está desgastado, o mesmo ocorrendo com Perillo em GO. Por isso mesmo, não se pode aduzir que as máquinas tucanas multipliquem votos para Aécio. Abre-se, portanto, espaço a ser ocupado por Campos e Marina.






terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O discurso de FHC no seminário do PSDB em BH

O PSDB de Minas Gerais tomou uma excelente iniciativa, inaugurada ontem à noite em BH, de desenvolver um ciclo de debates "Minas Pensa o Brasil". Já comentei aqui como os partidos brasileiros poderiam se espelhar em seus pares europeus que tradicionalmente abrem à sociedade reflexões sobre seu país. Lula promete o mesmo, começando pelo nordeste, onde um seminário discutirá as políticas sociais na inauguração da versão século XXI das Caravanas da Cidadania.
FHC abriu o ciclo. Sua fala foi um discurso para a militância e quadros tucanos (e apoiadores). Elevou o tom contra o governo Dilma Rousseff e ressaltou que os governos petistas estariam "roubando" a agenda e as propostas tucanas.
Acho que poderia mirar melhor. No meu entender, do ponto de vista do discurso eleitoral, deveria atacar o PT e não o governo Dilma. Já postei aqui, ontem, minha percepção que parte significativa do eleitorado não parece muito a vontade com o PT (e líderes petistas), embora tenham convicção a respeito da agenda lulista (que sustenta seu consumo familiar crescente). Seria mais inteligente se FHC explorasse esta fissura latente. E seria ainda mais inteligente se diminuísse a desconfiança das classes menos abastadas em relação à possibilidade dos tucanos desmontarem as políticas de transferência de renda e oferta de crédito popular.
FHC poderia ter inaugurado uma nova fase do discurso tucano, falando para um eleitorado mais amplo. Falou para dentro. Uma constante no discurso oposicionista tupiniquim.
Aprendi, anos atrás, que as urnas sempre apontam o norte, como uma bússola. Lembro de uma entrevista com o prefeito (tampão) de Vila Velha (ES) que me dizia que não havia percebido que as urnas tinham dito que a prioridade de governo seria o saneamento básico (os eleitores teriam votado no "mosquito", anulando o voto na eleição que este prefeito venceu). Para Dilma, as urnas demonstraram que grande parte do eleitorado brasileiro se identificou com o discurso de Marina. Mas Dilma virou as costas para esta dica. Da mesma maneira, a oposição brasileira (liderada pelos tucanos) está se negando a interpretar as dicas são deixadas nas urnas.
Pensei que FHC, pela capacidade de análise que possui, caminharia neste sentido. Mas deixou a impressão que as montanhas de Minas encobriram o olhar mais distante. Ainda há tempo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A tese da disputa no interior do bloco lulista

Fui entrevistado, hoje, pelo economista Paulo Passarinho, que pilota o excelente "Faixa Livre", na Band News AM RJ. Desenvolvi a tese que venho apresentando no blog a respeito da dificuldade da oposição enfrentar o lulismo e da possível disputa no interior do bloco criado por Lula. A entrevista pode ser acessada abaixo:

A vez dos lobistas

A notícia abaixo é a porta de entrada de lobistas (incluindo públicos e privados):

Levantamento feito pela CNM (Confederação Nacional de Municípios) aponta que oito em cada dez municípios brasileiros estão com pendências de regularidade e foram inscritos no CAUC (Cadastro Único de Convênios), da STN (Secretaria do Tesouro Nacional). Por conta desses problemas, 4.458 municípios --80,1% do total-- estão impedidos de celebrar convênios com a União.

Lançamento do Dicionário de Políticas Públicas

Acaba de ser publicado o Dicionário de Políticas Públicas organizado por Marco Aurélio Nogueira e Geraldo Di Giovanni.
Tenho um verbete (sobre movimentos sociais). Editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Fundação do Desenvolvimento Administrativo (FUNDAP).
Para saber mais, acesse AQUI

Dilma é novo ciclo do lulismo?

No último pitaco enviado por Cesar Maia (o boletim "ex-blog" que criou) sugere uma dúvida: Dilma seria um novo ciclo do lulismo ou sofrerá o desgaste natural de mais de 10 anos de gestão lulista?
A pergunta tem algum sentido, visto que é natural que os governos de longa duração se acomodem, comecem a defender o status quo e percam contato com os problemas reais do cotidiano.
Mas aí, vem algumas ponderações. Se a tese é uma norma, caberia, também para vários outros governos, incluindo os dois tucanos de Minas Gerais e São Paulo. Como política não é matemática, não sei não.
Também parece que o problema da patinada da oposição tem mais relação com suas próprias deficiências que com a popularidade inconteste do governo Dilma. Explico: a oposição (em especial, PSDB, DEM e PPS) desliza entre o moralismo e a personalização das críticas. Não consigo enxergar um programa básico ou algo que atraia o eleitorado para um mundo melhor que o que aí está. Outro fator desconsiderado por Maia é a poderosa estrutura de poder que o lulismo galvanizou, incluindo organizações populares, empresários, partidos coligados, beneficiados por políticas de transferência de renda e outros que tais.
Esta situação me parece paradoxal, já que as últimas eleições revelaram espaço para uma terceira via: de Marina no final do primeiro turno ao Russomanno nas eleições municipais paulistanas.
Tenho para mim que a  elucidação desta charada está numa postura pragmática do eleitorado: embora a grande maioria do eleitorado seja muito conservadora (a levar em consideração as várias pesquisas disponíveis nos últimos meses sobre cultura política brasileira, valores e interesses), os governos lulistas lhes dá segurança em relação ao consumo e qualidade de vida. O que não impede de parte deste eleitorado continuar desconfiando do PT (não sei se necessariamente de Lula e muito menos a respeito do lulismo, mas evidentemente não tem apreço por ex-guerrilheiros ou todo estilo 68).
Hora, se há desconfiança em relação ao PT, não haveria nada fora do lulismo que sugira o fim do ciclo lulista. A resolução da equação ficaria, então, assim: se não for PT, será lulista.
Em outras palavras, um outro governo não petista não sairá da oposição ao lulismo, mas do interior do lulismo, em especial, se tiver um passado e um discurso que crie mais empatia com os valores e comportamentos mais conservadores do eleitorado, mas que garanta os mesmos benefícios que tucanos, democratas e todos outros declaradamente de oposição não conseguem sustentar.
O PSB parece a promessa mais consistente neste sentido. Mas Marina me parece mais adequada, embora tivesse que explorar mais o perfil evangélico que a moderna proposta de desenvolvimento sustentável, algo que não se revela conteúdo essencial da plataforma da militante verde. Também faltaria à Marina uma estrutura partidária e apoio social organizado.
Enfim, se Cesar Maia tem razão em citar o possível "desgaste de material", sua conclusão parece apressada ou contaminada por seu desejo pessoal. A dedução a partir desta tese (o desgaste de material) não é fácil de construir. Mas há sinais que corroboram a tese.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

O melhor da Folha de hoje é a Mônica

A Folhinha de hoje destaca matéria sobre os 50 anos da Mônica, personagem criado pelo Maurício de Souza. De todas matérias da Folha, esta é a melhor. Ao menos para gente como eu, que tem 50 anos. Acabamos criando aquela linha encadeada de situações em que a dentuça cinquentona faz parte. Gostava das tirinhas na última página dos gibis, quase sempre tendo Cebolinha como personagem principal. Lembro muito de uma tirinha em que ele perguntava para um sorveteiro que sabores ele tinha e após desfilar uns noventa sabores, Cebolinha escolhia o primeiro da lista, para desespero e raiva do sorveteiro. A graça no trivial. Trivial, hoje, não tem muita graça. Como lembra o jornalista David Carr (personagem da última página da Ilustrada de hoje): "todos nós caminhamos nesta terra pensando que somos fraudes... o jeito é ser agradecido".
Hoje, ler Corto Maltese ficou mais "real".

Garotinho propõe fim da publicação de balanços de empresas em jornais impressos

Anthony Garotinho (PR-RJ) anunciou em seu blog que apresentará projeto de lei que acabaria com a obrigatoriedade de empresas publicarem seus balanços em jornais impressos. Bastaria publicarem na internet. Hoje, ao acessar o blog do deputado, há uma chamada na abertura sobre o que considera retaliação da Globo: o Jornal Nacional teria divulgado matéria sobre situação precária de centros de atendimento aos doentes mentais em Campos, município fluminense governado por sua esposa (ver AQUI).
O que quero destacar desta briga é como este tema das relações de financiamento da imprensa vem ganhando relevo. Fiquemos nesta questão de publicidade de empresas e governos. Imaginemos que este projeto de lei seja realmente apresentado e seja aprovado. Os jornais impressos passariam a ser sustentados, cada vez mais, pelos anúncios publicitários dos governos e parlamentos, já que as vendas caem ano a ano (com exceção dos jornais populares, à exemplo do Extra).
Ora, aqui mergulhamos numa estranha situação. Justamente o segmento que diz defender a liberdade de imprensa é a que estará mais e mais vinculada ao jogo de negociações com governos. Também me parece incoerência os jornais que defendem a competência como fator de mérito e sucesso na iniciativa privada estarem escorados na distribuição de recursos públicos.
Sabemos o quanto as verbas de publicidade de governos e parlamentos contam na saúde de jornais impressos (e rádios) e como sua distribuição define manchetes e linha editorial. No interior, há casos em que jornais chegam a indicar chefes de gabinete ou outros cargos em troca de grandes elogios ou vida tranquila do governante. O leitor, assim, compra gato por lebre. Não lê necessariamente notícias, mas um caldo apimentado ou purê de batatas, de acordo com os acordos comerciais de momento. Imaginemos esta situação no caso das decisões de um juiz. Ou, ainda, a postura de um professor em sala de aula, ou a de um médico.
É evidente que é necessário alguma regulação a respeito. Extinção de verba publicitária pública para imprensa (já que governos podem ter suas peças publicitárias próprias, incluindo panfletos), limitação da verba ou definição do critério de distribuição. O fato é que não dá para falarmos em liberdade de imprensa que não se traduza em matérias imparciais (ou que o jornal se declare publicamente parcial). Porque, caso contrário, o leitor estaria comprando um panfleto de campanha e não um jornal. Daí, a melhor relação seria a de compra em bancas ou assinaturas, sem publicidade governamental. O leitor seria, de fato, o guia editorial.
Meio óbvio, não?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Processo de seleção na Heineken


As articulações do PSB para 2014

O blog de Josué Nogueira (ver AQUI ) publica interessante nota sobre as articulações do PSB que, segundo sua avaliação, denotariam os preâmbulos do lançamento da candidatura de Eduardo Campos à sucessão de Dilma Rousseff.
Além da ilustração ao lado, reproduzo parte do texto de Nogueira que indica o itinerário socialista:


Rio de Janeiro:  Ventilou-se a possibilidade de o senador Lindbergh Farias deixar o PT e se filiar ao PSB caso não fosse lançado candidato a goevrnador. Mas o PT se adiantou e já veicula inserção com o senador.
Lindbergh esteve duas vezes no Recife para conservar com Eduardo e sondar quais seriam suas chances de sair candidato pelo PSB no Rio. Os dois se conhecem desde os tempos do Movimento Estudantil.
O PT deve ter comprado briga com o PMDB, do governador Sérgio Cabral, que prepara-se para lançar o seu vice, Pezão.
No segundo semestre de 2011, o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão deixou o PMDB e se filiou ao PSB.
Na época se ventilou que ele concorreria à Prefeitura do Rio em 2012, o que não ocorreu. Seria ele o candidato socialista ao governo fluminense em 2014?
São Paulo: Não há nomes em cogitação. O PSB acredita que PT e PMDB vão brigar
internamente pela cabeça da chapa e por isso decide que o mais sensato é aguardar.
O mesmo vale em relação ao PSDB paulista, que também deve requentar o embate com o PSDB mineiro no que diz respeito à corrida presidencial.
O embate dve ter reflexo na chapa tucana naquele estado. Mais um motivo para não se ter pressa.
Minas Gerais: O que se comenta é que o ex-ministro dos Transportes Walfrido Mares Guia está organizando o partido se cacifando para encabeçar a chapa socialista.
Há expectativa que setores do PMDB apoiem o PSB e votem em Eduardo Campos.
Paraná: Socialistas avisam que terão palanque equivalente ao de Minas Gerais. No Rio Grande do Sul, também há se montar um “muito bom”. Em Santa Catarina, a expectativa é que se tenha um num nível do Nordeste.
Bahia: No maior colégio eleitoral da região, comandado pelo PT, ventila-se a possibilidade da candidatura da senadora Lídice da Mata ao governo do estado.
Tudo ainda muito incipiente. PSB é aliado do PT em nivel estadual, mas, segundo o que se comenta por lá, é que não haverá complicação alguma se os socialistas saírem com chapa própria.
O PT baiano, assim como legendas de governo e oposição, consideram inevitável o projeto de Eduardo e por isso mesmo concluem que o palanque socialista é natural.
PSB pelo país – Palanques estaduais para 2014
Quatro dos seis governadores concorrerão à reeleição:
Amapá – Camilo Capiberibe
No estado, há um senador, uma deputada federal, dois estaduais e três prefeitos
Espírito Santo – Renato Casagrande
No estado, há dois deputados federais, dois estaduais e 22 prefeitos
Paraíba – Ricardo Coutinho
No estado, há três deputados estaduais e 35 prefeitos.
Piauí – Wilson Martins
No estado, há quatro deputados estaduais e 53 prefeitos
Em Pernambuco e no Ceará, os governadores Eduardo Campos e Cid Gomes,
respectivamente, já são reeleitos e comandarão a sucessão.
Em Pernambuco, há quatro deputados federais, 13 estaduais e 59 prefeitos,
inclusive o da capital.
No Ceará, há 10 deputados estaduais, quatro federais e 40 prefeituras,
incluindo Fortaleza
Demais estados
Norte (28 prefeitos – 6,22% da região)
Acre – Um deputado estadual e um prefeito
Amazonas – Um deputado estadual e um prefeito
Pará –  Dois deputados estaduais e cinco prefeitos
Rondônia – Um deputado estadual, um federal e dois prefeitos, inclusive da capital
Roraima – Dois deputados estaduais e nenhum prefeito
Tocantins – Um deputado estadual, um federal e 16 prefeitos
Nordeste (264 – 14,72% da região)
Maranhão – Um deputado federal, três estaduais e 15 prefeitos
Rio Grande do Norte – Quatro deputados estaduais, um federal e 19 prefeitos
Alagoas – Um deputado federal e 5 prefeitos
Sergipe – Um senador, um federal, dois estaduais e 10 prefeitos
Bahia – Uma senadora, dois estaduais e 28 prefeitos
Centro-Oeste (25 – 5,36% da região)
Mato Grosso – Um deputado federal, um estadual e 11 prefeituras, inclusive a
capital Cuiabá
Mato Grosso do Sul – Um deputado estadual e 4 prefeitos
Goiás – Dez prefeitos
Distrito Federal – Um senador e um deputado distrital
Sudeste (91 – 5,46% da região)
Minas Gerais – Um deputado federal, dois estaduais e 31 prefeituras, inclusive
a capital Belo Horizonte
São Paulo – Três deputados estaduais, cinco federais e 30 prefeitos
Rio de Janeiro – Dois deputados federais, quatro estaduais e 8 prefeitos
Sul (34 – 2,85%)
Paraná – Três estaduais, um federal e 14 prefeitos
Santa Catarina – Dois prefeitos
Rio Grande do Sul – Três deputados estaduais e três federais e 18 prefeitos
Novas prefeituras
2008 -2012
Eram 310 prefeituras em 2008 contra 443 em 2012 – um crescimento de 42,90%, o
maior do país.
No total, o PSB tem 7,4% das prefeituras brasileiras contra 18,3% do PMDB (ou
1.024), 12,6% do PSDB (702) e 11,4% do PT (635).


A visita de Yoani

Quem já leu os posts de Yoani Sánchez no seu blog (Generación Y) deve ter percebido a qualidade dos seus textos. Muito bem escritos com traços literários nítidos. As críticas iniciais tinham um tom pessoal, de defesa de sua liberdade individual e pipocavam aqui ou ali. Mais adiante, assumiram uma queixa mais grupal, de blogueiros e poetas. Só mais recentemente seu blog passou a desferir ataques mais frequentes ao governo de Cuba, assumindo uma linha mais genérica e menos pessoal. De minha parte, sempre achei que ela tinha todo o direito de expressar o que desejasse, como é ponto de honra para qualquer blogueiro.
Mas sua visita ao Brasil foi um erro grosseiro. Fico em dúvida se planejou errado, se caiu nas garras da oposição ou se realmente se revelou (derrubando as até então teorias conspiratórias já que se revelariam corretas). De início, achei que as manifestações de pequenos grupos mais à esquerda foram infantis. De fato, chamaram a atenção para a blogueira que é, até aqui, uma mera fonte literária, quase exótica. Duvido que alguém se espelhe no seu blog para se posicionar ou obter informações essenciais sobre qualquer tema.
Mas aí, como sempre ocorre neste país, o que parecia um tiro no pé desses minúsculos grupos de certa esquerda com tempo para estar em aeroportos pela madrugada ou início da manhã e rabiscar cartolinas com frases enormes, gerou efeito contrário.
A oposição brasileira, em mais um ato de revelação de sua incapacidade para falar para além de seus pares, procurou politizar ao máximo este "grande conflito" envolvendo a recepção de Yoani. Carregou tanto nas tintas que acabou criando uma armadilha fatal à Yoani. A blogueira cubana encontrou-se com o que há de mais estapafúrdio na política brasileira, como o personagem Bolsonaro. Não ficou só nisto. Deu entrevistas dizendo que quer formar um jornal para unir a oposição cubana ou algo que o valha. Interessante que todos jornais brasileiros revelaram que seu peso político ou social em Cuba beira o traço estatístico. Ora, eu não teria coragem de dizer em entrevista que vou criar uma rede de televisão, justamente porque daria um sinal de problema mental. Sendo um sonho juvenil, expor um desejo pessoal à grande imprensa brasileira pode ser demonstração de deslumbramento ou pode alimentar ainda mais os ataques que até agora pareciam vindas da teoria conspiratória.
O fato é que esta visita vai se revelando uma bobagem que será esquecida em poucos dias. Não acrescentou nada de novo, não deu contornos mais nítidos sobre a vida e cultura cubanas e acabou caindo na esparrela da disputa política tupiniquim.
Yoani, sem dúvida, sai mais chamuscada do que quando chegou. Uma pena.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Minha breve entrevista sobre xadrez eleitoral de 2014

Abaixo, reproduzo a breve entrevista solicitada pela jornalista Andrea Dominguez, correspondente no Brasil do jornal Notícias de Colômbia:


1. Qual é o principal desafio de Dilma para se reeleger em 2014?
R: São dois desafios: manter a base aliada unida ao redor de sua candidatura (em especial, PSB e PDT) e sustentar o nível de consumo familiar (principal fator de popularidade do lulismo).

2. A potencial candidatura de Eduardo Campos tem a capacidade de ferir gravemente as intenções do PT nessa campanha?
R: Eu acredito que é mais prejudicial, em termos eleitorais, à candidatura de Aécio Neves que à de Dilma. Explico: Aécio é, ainda, uma liderança mineira, que não consegue penetrar no nordeste. E ninguém se elege Presidente sem o nordeste. Dilma tem alta popularidade no nordeste em função das políticas de fomento ao consumo e transferência de renda. É a região que recebeu mais recursos do BNDES nos últimos anos, por exemplo, além de concentrar o bolsa família. Aécio tenta atrair Eduardo Campos justamente em função desta situação. Na pesquisa Datafolha do final do ano passado, a penúria do senador mineiro é claramente revelada, ficando em terceiro lugar, ou quarto, em todos cenários de projeção de votos para Presidente. No caso de Dilma a candidatura de Campos parece ruim para a governabilidade. Só teria problema eleitoral se Campos fosse vice de Aécio, o que parece totalmente descartado pelo PSB. Contudo, se Eduardo Campos sai como candidato a Presidente, diminui espaços de Aécio e Dilma (embora ela mantenha vantagem eleitoral sobre Aécio) no nordeste e obrigará o governo federal a abrir mais espaço para o PMDB. Perceba que numa vitória de Dilma, a recomposição com o PSB será mais difícil, principalmente em função da ocupação do espaço que hoje os socialistas têm no governo federal.

3. Qual a importância que Lula terá neste processo?
R: Dilma não tem cognição política. Ela é gerente, mas péssima política. Lula é o artífice dos acordos políticos, seja com partidos da base aliada (PMDB, PSB, PDT, entre outros), seja com forças políticas importantes (igreja católica e evangélicos). Também é o dirigente maior do PT. Em outras palavras, é ele que costura acordos. Também é quem define a estratégia eleitoral e alianças. Veja o caso da engenharia política que está montando: procura lançar a candidatura de Michel Temer ao governo de São Paulo e, assim, abrir espaço para compor com Eduardo Campos na chapa com Dilma. Mataria dois coelhos com uma cajadada (atrairia o PSB no país todo para a reeleição e criaria uma chapa muito competitiva para derrubar o PSDB do governo paulista). Este é e continuará sendo o principal papel de Lula no processo eleitoral. Também terá papéis secundários: uma espécie de "memória" das diferenças entre governos tucanos e lulistas e, quando necessário, sairá em defesa de Dilma, atacando adversários, o que poupará a candidata petista

Um bom exemplo de jornalismo político

Como critiquei as manchetes dos jornais mineiros, ontem (em especial, de um deles), hoje tenho em mãos um bom exemplo do que deveriam ter feito. A Folha de S.Paulo dá continuidade à tentativa de polarização PT-PSDB, seguindo o que considero uma linha editorial correta: dá voz aos outros candidatos que não desejam a polarização (página A-4); cruza as versões e iniciativas dos dois polos desta disputa (A-5) e apresenta uma análise equilibrada do ocorrido (A-6, que ilustra esta nota).
O leitor tem, assim, condições de pesar o encadeamento dos fatos e cotejar várias leituras e versões sobre os mesmos. As análises de Fernando Rodrigues e Gustavo Patu são primorosas como exemplo de equilíbrio jornalístico. De um lado, apresenta uma linha de continuidade (dentre várias de descontinuidade) entre governos tucanos e lulistas. De outro, sugere que o discurso do senador mineiro fez o mesmo que a cartilha petista, com sinais trocados. Finalmente, um box indica o que seria telhado de vidro tucano, a partir das críticas de Aécio (que caberiam com até mais veemência em relação aos anos FHC).
Com esta concepção editorial, o leitor tem chance de discordar (eu mesmo não acredito que a polarização seja interesse dos lulistas, mas apenas do senador Aécio Neves, que precisa diminuir as chances dos possíveis adversários Eduardo Campos e Marina Silva, que mais estragam sua plantação que a lulista).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Meu breve artigo sobre o modelo FHC e Lulista de governar

Ontem, o Estadão me pediu para redigir um breve artigo sobre as diferenças entre o modo FHC de governar e o modo lulista de governar. O artigo foi publicado na edição de hoje e reproduzo abaixo.

O Estado gerencial e o fordismo tupiniquim

21 de fevereiro de 2013 |
SOCIÓLOGO, DOUTOR EM CIÊNCIAS SOCIAIS, DIRETOR GERAL DO INSTITUTO CULTIVA, AUTOR DE LULISMO (FUNDAÇÃO ASTROJILDO PEREIRA/EDITORA CONTRAPONTO). - O Estado de S.Paulo

Análises: Rudá Ricci
São dois projetos distintos e muito nítidos. A gestão FHC trouxe elementos da lógica e da estrutura organizacional empresarial para o interior do Estado. Não adotou a cartilha neoliberal que, aliás, é extremamente pobre, mas a lógica do Estado gerencial, que se alimentou de alguns elementos neoliberais. Já a concepção lulista estaria mais próxima do que a Escola da Regulação Francesa denominou de "fordismo". Um fordismo tardio, já que seu declínio nos EUA e Europa teve início a partir do choque do preço do petróleo na segunda metade dos anos 1970.
O fordismo tardio adotou os seguintes instrumentos anticíclicos: Estado central controlador e concentrador de recursos públicos para investimento (o que esvaziou a autonomia dos municípios e gerou total dependência de convênios federais); BNDES como banco de fomento de grandes projetos; Bolsa Família e aumento real do salário mínimo e da renda média dos trabalhadores e criando potente e voraz mercado consumidor.
Politicamente, instalou-se a lógica neocorporativa no País, em que centrais sindicais e organizações da sociedade civil passaram a ser financiadas e a participar ativamente das deliberações e instâncias governamentais (estatais, agências reguladoras) e consolidou-se a coalizão presidencialista - em que grande parte dos partidos se envolve diretamente na gestão do aparelho de Estado.
Essa potente estrutura de Estado diminuiu sobremaneira os espaços de qualquer oposição política. A inserção social ocorreu pelo consumo e não pela ampliação de direitos ou pela política, o que apartou ainda mais a lógica política da lógica social. Quase totalidade dos partidos está, hoje, controlada por parlamentares e não pela sociedade civil. Os deputados, inclusive, acabaram se tornando príncipes deste fordismo tardio, mediando convênios entre prefeituras e agências federais. Como se percebe, o fordismo tardio tupiniquim é muito mais articulado e poderoso que a agenda dos anos de gestão tucana. Avança socialmente, mas atualiza a lógica política clientelista que marca a História da República brasileira desde seus primórdios.

O dilema da imprensa mineira

Algo que sempre me incomodou desde que cheguei, há vinte anos, em MG, é a exportação de talentos, em especial, da imprensa. Fernando Mitre, Fernando Gabeira, Chico Pinheiro, vários são os nomes de jornalistas de destaque que não permanecem por muito tempo por estas bandas. Nunca entendi bem os motivos, embora uma das pistas seja a média salarial mineira (em qualquer profissão) que está muito abaixo da média nacional. Basta pesquisar o salariomêtro do governo paulista (ver AQUI ). Mas há outra questão que me deixa perplexo: a linha editorial.
Hoje temos, logo cedo, um bom exemplo deste problema. A ilustração ao lado é a capa do jornal Hoje em Dia. Quase 2/3 da capa foi dedicada ao discurso de Aécio Neves, ontem, no Senado. Há consenso (até esta capa ir para as ruas) entre jornalistas que o discurso foi pífio e fraco, embora irônico e apontando problemas concretos. Ontem, publiquei, como ilustração, a nota publicada no blog de Josias de Souza, da Folha/UOL. Este tipo de linha editorial atinge quase a totalidade da imprensa mineira. A seguir, reproduzo a capa do Estado de Minas de hoje. Uma capa mais comedida e imparcial, embora trabalhe com a polarização pretendida pelo candidato tucano. Aparece Aécio e Dilma em proporções iguais. Embora seja a manchete, ocupa menos de 1/3 da capa de hoje. Algo similar à capa do jornal Metro BH de hoje.
Logo abaixo, reproduzo a manchete do jornal O Tempo é ainda mais comedida: apenas uma pequena chamada, no rodapé esquerdo da capa.
Imagino que o internauta já tenha percebido a linha de minha argumentação: existe uma certa "patriotada" na linha editorial da imprensa mineira, embora de maneira diferenciada. Não há dado algum que esta política atraia leitores ou venda em banca. Não é exatamente aí que está a motivação editorial. Então, continua a dúvida sobre o que ocorre. Obviamente que há boatos sobre a saúde financeira e sobre o peso das verbas publicitárias. Mas esta é uma tese.
O fato é que MG possui uma média de renda menor, portanto, menos leitores em potencial. Não temos falta de quadros e profissionais na área de comunicação. Não falta pauta. Mas falta imaginação e ousadia. O caminho adotado parece o mais seguro, mas também o mais conservador. E, tenho para mim, a lógica jornalística tem pouca relação com conservadorismo, que significaria, no limite, repetir a mesmice todo santo dia.
Resumindo: não seria mais correto elaborar uma manchete que desse a verdadeira dimensão do fato? Que separasse opinião de reportagem? Que buscasse a análise dos dois lados (e dos outros que participarão da gincana eleitoral do próximo ano e que não desejam que esta polarização Aécio/Dilma ocorra) sobre os dois eventos (discurso do senador e evento do partido da presidente)? Que analisasse os motivos para PT comparar seus governos com os de FHC já que este não é candidato? Que analisasse os motivos do discurso de Aécio? Não seria mais jornalismo?


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A avaliação de Josias de Souza sobre o discurso de Aécio Neves

Parece que a cada passo de Aécio Neves vai se consolidando a impressão que lhe falta algo essencial para ser um efetivo candidato à sucessão de Dilma Rousseff. Josias de Souza, em seu blog, analisa o impacto pífio de seu discurso, hoje, no Senado, tentando se contrapor ao evento de 33 anos do PT. A análise de Josias pode ser acessada AQUI.
Não vi com bons olhos a ideia de polarizar no mesmo dia do evento dos seus adversários. Qual o motivo? Teria feito uma leitura pouco calibrada de seu poder de atração? O PT tem o governo federal e escalou uma assistência de entrega de Oscar para o evento. Aécio teria apenas seus pares no Senado, poucos aliados de oposição, para fazer claque.
Para a grande imprensa dar destaque, teria que fazer um discurso-denúncia. Algo forte, surpreendente. A outra saída, menos espetacular, seria se apresentar como Salvador da Pátria.
No frigir dos ovos, não fez nem um, nem outro. Ficou no mesmo lugar. Enquanto PT entabula uma estratégia mais nítida: da redução do custo de energia à ampliação do bolsa família.
Aécio precisa polarizar o quanto antes para diminuir espaços de Marina e Eduardo Campos.
Mas deste jeito, faz a lição de casa, mas sem brilhantismo. Vai tirar uma boa nota. Mas não vai ganhar o emprego.
 
 

Entrevista sobre a refundação da ARENA

Entrevista ao jornalista Marcus Lopes sobre a recriação da ARENA no Brasil.

1 - Como você vê o projeto de fundar um partido com o nome da Arena?

R: Seus líderes são bastante jovens e não viveram o período do regime militar. Sua idealizadora (na foto que ilustra esta nota), a estudante de direito Cibele Baginski, possui 23 anos. Refutam o fascismo e se dizem “direita democrática”. O mais interessante é que querem resgatar valores como o nacionalismo e o direito à propriedade. Enfim, um programa não muito definido. O fato é que existe efetivamente traços de cultura política conservadora em nosso país. Basta lembrarmos da reação fundamentalista no final do primeiro turno das eleições presidenciais passadas. Nos Estados do sul, bispos católicos chegaram a pregar uma “Santa Aliança” com bispos evangélicos, contra a agenda de ampliação de direitos civis, como casamento entre homossexuais e legalização do aborto, entre outros. As pesquisas de opinião, realizadas pelo IBOPE e Datafolha corroboram um pensamento conservador em termos de comportamento. Todo este caldo de cultura não se expressa, até o momento, na estrutura partidária e está sendo capitaneado, eventualmente, por setores das igrejas cristãs.

 

2 - A nova Arena é formada por jovens que assumidamente são muito identificados com a direita e o regime militar. O que explicaria essa identificação, do ponto de vista político e sociológico? Geralmente os jovens são muito mais ligados a partidos de esquerda.

R: Há certo mito sobre a politização da juventude no Brasil. Afirma-se, muitas vezes, que a juventude era muito engajada nos anos 1960. Se havia grande engajamento, também havia uma parcela significativa de jovens que se envolviam com hábitos prosaicos, com o estilo playboy que se expressava pelo modo de comportamento da Jovem Guarda. Os dados recentes revelam que grande parte da juventude brasileira, que conforma a Geração Y, é refratária às regras e hierarquia, é imediatista e procura se comunicar via redes sociais. Não é, portanto, o perfil dos jovens que fundam a ARENA. Enfim, não temos que mitificar esta ala mais conservadora da juventude. Ao contrário, a grande maioria da juventude brasileira não se identifica com partido político. As redes, cuja relação é mais afetiva e efêmera, levam mais sua cara e identidade.

 

3 - Muitos desses jovens não viveram a época da ditadura. Isso pode influenciar na posição ideológica deles?

R: Na busca por uma identidade própria e, talvez, em função da rejeição à lógica política dominante (o que inclui os casos recentes de corrupção), estes jovens podem estar procurando sugerir uma estrutura social mais normatizada, mais regrada moralmente. São, obviamente, intolerantes à diferença, mas não me parecem ideologicamente preparados ou mesmo conscientes do que significou a ARENA no regime autoritário, ditatorial. Muitos dos valores que pregam foi justamente conspurcado pela ARENA. Enfim, acho que estes jovens propõem mais uma intenção romântica e um porto seguro que ideologia.

 

4 - De certa forma, a ideia de criar um partido de direita preenche um vazio ideológico, já que praticamente não há partidos assumidamente de direita hoje em dia e os que existem estão enfraquecidos?

R: Só preencheria se conseguisse se articular com o conservadorismo difuso que envolve grande parte dos brasileiros. Em outras palavras, somente se tornando partido de massas, enraizado no cotidiano de grande parte dos brasileiros e se tornando expressão da visão de mundo conservadora é que preencheria este vazio. Contudo, não me parece que esta seja a intenção e estratégia (se há, de fato alguma) dos criadores desta ARENA. Acredito que alas ultraconservadoras das igrejas cristãs brasileiras são mais potentes nesta tarefa.

 

5 - Quais podem ser as consequências de um partido como a Arena no cenário político atual, levando-se em consideração que eles optam por uma linha muito conservadora e alinhada aos ideais do regime militar?

R: O sistema partidário brasileiro não tem ideologia alguma. Aliás, estudos recentes demonstram que coligações partidárias heterogêneas conseguem muito maior sucesso eleitoral que as coligações mais homogêneas do ponto de vista ideológico. Um conjunto de estudos sobre este fenômeno se encontra no livro organizado por Silvana Krause, editado pela UNESP e que leva o título “Coligações Partidárias na Nova Democracia Brasileira”. Parece ocorrer uma tendência à desideologização partidária em função do processo eleitoral brasileiro. Não vejo, portanto, um caminho seguro para a ARENA a partir do atual sistema partidário. O PT rompeu, por um momento, esta lógica, mas voltou ao caminho natural com o advento do lulismo.

 

6 - Independente de qualquer ideologia, temos um fato novo na política?

Não. A política brasileira voltou ao seu veio tradicional, clientelista. Houve uma nítida atualização das figuras de tipo coronelísticos, caciques partidários e comando da política por políticos profissionais. Em todos partidos, são os deputados que comandam os diretórios. As lideranças sociais não encontram espaço, nem mesmo os filiados, nestas estruturas de tipo empresarial, altamente centralizadas e controladas. Só isto explica como são escolhidos e eleitos “postes”, figuras jejunas da vida política que, não raro, disputam sua primeira eleição.

A confusão política em Colombo, no Paraná

Colombo é outro exemplo de que, em política, não há fundo de poço. O município da Grande Curitiba revela uma das facetas mais kafkanianas do país, o que faz com que os cidadãos fiquem ainda mais atordoados e atônitos. Fica realmente difícil acreditar que os políticos profissionais do país vivam no mesmo mundo que os cidadãos (que também atendem pelo apelido de eleitores). Vejam um primeiro resumo feito pelo Blog do Esmael, mas que não termina nos três pontos. A matéria toda, ainda mais assombrosa, você pode acessar AQUI . Mas leia estes três pontos:


1) A ex-deputado Beti Pavin (PSDB) foi eleita prefeita nas últimas eleições, mas não pôde ser diplomada e assumir a prefeitura porque estava impedida pela Lei de Ficha Limpa. Por força de uma decisão monocrática do TSE, a tucana poderá sentar na cadeira na próxima sexta-feira (22).
2) A Câmara Municipal de Colombo também está toda encrencada. Foram eleitos 21 vereadores, mas a Justiça determinou que fossem apenas 13 cadeiras. O Tribunal de Justiça concedeu uma liminar para que o legislativo começasse a funcionar
3) A prefeitura vem sendo tocada provisoriamene pelo vereador José Renato “Pelé” Strapasson (PTB), mas, se confirmada a redução da Câmara, ele não estará entre os 13 eleitos.

Aécio decidiu fazer Lacerda de refém

Ouvi, ontem, uma história deliciosa sobre o estilo Aécio. Semanas atrás, Aécio teria pedido para o deputado João Leite e solicitou que agendasse audiência com o prefeito Marcio Lacerda. O jogo seria o seguinte: João Leite diria que só aceitaria a Secretaria de Obras, definida por seu partido como da cota em função do apoio decisivo do PSDB para a reeleição de Lacerda (lembremos que Andréa Neves assumiu importante papel no seu comitê eleitoral). Aécio já sabia que o prefeito não teria como acatar esta demanda. Dito e feito. Segundo o mesmo relato, Marcio Lacerda teria dito que qualquer outra secretaria estaria à disposição do deputado tucano, mas que a de obras continuaria com o atual titular. Foi a senha para se vazar, junto à imprensa mineira, que as relações estavam tensas. Até mesmo o nome de Andréa Neves foi ventilado como defensora do irmão. Teria adotado um tom pouco acima do razoável para falar com o prefeito da capital mineira.
A partir daí, Aécio avançou sobre outras pérolas, como a URBEL, controlado direta e indiretamente por petistas (ou anti-tucanos) em virtude da política de intervenção urbana, em especial, regiões mais pobres e favelas.
O fato é que hoje se noticia que o PSDB ficou fora das principais secretarias da Prefeitura de BH. A Secretaria de Obras ficou com quem Lacerda já havia definido: o atual secretário José Lauro Terror (que já foi funcionário de Lacerda em outros tempos). O vereador Daniel Nepomuceno ficou com a Secretaria de Políticas Sociais. Tucanos ficaram com Saúde, BHTrans e Sudecap. Mas a estratégia de Aécio pode ter surtido efeito. A Secretaria de Esportes, que ficaria com o PDT, vai para o vereador tucano Pablito. E, ainda, possivelmente a Prodabel também será dirigida por um tucano.
Amanhã teremos, possivelmente, o anúncio oficial. Mas ficará a dúvida se o PSDB caiu para cima ou realmente aumentou seu poder.
Fica apenas a dúvida sobre o lugar do governador Anastasia neste jogo.

O calvário do presidente da Câmara Municipal de BH

Leo Burguês, o presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, está se tornando um exemplo, pelo avesso. Estimulou uma intensa oposição jovem por ter cometido excessos quando presidente na legislatura passada. Acabou se tornando personagem de marchinha de carnaval, em virtude dos gastos com lanches, comprados num estabelecimento comercial cuja proprietária é sua madrasta. Se reelegeu, mas os holofotes continuaram sobre ele. Seus colegas de Câmara, neste ano, decidiram que sua imagem aumentaria o desgaste do parlamento local e explicitaram aos quatro ventos que não o queriam presidindo seus trabalhos. O prefeito Marcio Lacerda aproveitou a onda e procurou compor uma outra chapa para a mesa diretora, ampliando seu campo de aliados até mesmo para petistas, com quem disputou a reeleição. Aécio Neves demonstrou insegurança e oscilou entre Burguês e outras indicações tucanas.
Os rachas entre os diversos grupos de vereadores abriram, contudo, uma brecha para o jovem e complexo vereador refazer sua chapa e se eleger, novamente, Presidente. Leo Burguês estava feliz.
Até que, ontem, o juiz do Foro de Belo Horizonte cassou seu mandato por abuso de poder econômico, tornando-o inelegível por oito anos. Burguês vai recorrer, mas a imagem de burguês rebelde vai se cristalizando. A denúncia do Ministério Público relaciona-se ao gasto autorizado pelo vereador, entre 1o de janeiro e 15 de março de 2012 (ano eleitoral) de 2,7 milhões de reais com propaganda oficial (796 mil reais mensais), sendo que nos anos anteriores esta rubrica não consumiu mais que 1,8 milhões de reais.
Aqui temos duas lições.
A primeira: é hora de entrar na onda do julgamento do mensalão e trazer luz a tais gastos publicitários. Acompanho as manchetes de muitos jornais e é perceptível a mudança de humor. Fala-se muito dos executivos e suas verbas publicitárias, mas esquecemos que os parlamentos, inclusive os locais, dos grandes municípios e capitais, têm muito fôlego. Que tal se esta história envolvendo Burguês não fosse o estopim de uma investigação mais rigorosa e geral?
A segunda: Burguês é jovem. Segundo artigo publicado na Veja BH, em 20 de junho do ano passado ("Aqui me tens de regresso": AQUI ), Leonardo Silveira de Castro Pires (este é o nome do Presidente), já era conhecido desde os anos 1990 como promotor de festas "quentes". Portanto, temos esta combinação entre juventude e energia para empolgação de baladas. O que faz com que Burguês cometa os erros típicos da juventude, alimentados por muita adrenalina e a certeza que tudo pode e que os mais velhos erraram por falta de foco e energia. Resumindo: sua ânsia para retornar ao centro do poder parlamentar de Belo Horizonte pode ter custado, de uma vez por todas, sua imagem. O recurso que apresentará ganhará as páginas dos jornais, como já ocorreu hoje em terras mineiras. A resposta e argumentos do Ministério Público retornarão. Se perder em segunda instância, toda a mesa diretora da Câmara Municipal estará em palcos de aranha. Teria sido um bom negócio ter ido com tanta sede ao pote? Não teria sido mais prudente se afastar dos holofotes neste primeiro biênio (deve ter pensado que teria mais projeção em ano de Copa do Mundo) para retornar mais adiante? Afinal, conseguiu se reeleger, mesmo com atraído tanta oposição jovem.
Já sabemos o que vai ocorrer se passar por mais esta prova de fogo: a imagem terá colado e dificilmente haverá como sair desta rota. Não sabendo jogar o xadrez político, joga segurando todas suas peças, até os peões, e acaba encurralado. Não percebe que oferecer um bispo pode significar a sorte no jogo. Caindo ou se safando, estará tão enredado nesta história que a única saída será afundar mais e mais nesta tragédia. Será mais um caso de envelhecimento precoce na política.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O partido de Marina

Marina começa a enfrentar o corredor polonês dos que entendem que seu partido pode gerar uma quebra no equilíbrio de forças partidárias ou frusta aqueles que projetavam na sua liderança algo que ela nunca carregou ou prometeu. Vou dar um exemplo. Circula na internet um breve artigo assinado por Cidinha da Silva, cujo título é "Marina Silva, a fundamentalista!". Cidinha possui um blog (http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/ ) onde divulga sua produção literária.
Pois bem, neste artigo, Cidinha destila, desde o início, a frustração não contida de Marina ser religiosa, a partir do qual professaria "valores inaceitáveis quanto à orientação sexual de outrem, à soberania da mulher sobre o próprio corpo e à garantia da liberdade para o exercício das diversas práticas religiosas". E termina destacando sua maior contrariedade: Marina sugeria que estes temas (aborto e casamento gay, entre outros) fossem objeto de consulta pública.
O medo, implícito no artigo, se deve ao fato de qualquer plebiscito ou consulta popular realizada no Brasil invariavelmente dará ganho para o ultraconservadorismo fundamentalista. Muitas pesquisas recentes revelam que a maioria dos brasileiros (acima de 70% do total de opiniões aferidas) é a favor da pena de morte, criminalização do aborto e uso de maconha, proibição de casamento gay, entre outros temas "polêmicos".
Daí que parte dos defensores dos direitos civis compreenderem que qualquer consulta popular se transforma em chantagem política. Aí entramos numa seara das mais complexas.
Primeiro, porque a consulta popular nasce da mesma premissa do voto universal: a democracia fundada no deseja da maioria. Cidinha deveria, neste caso, revelar sua indignação com o voto. Não se trata de uma posição conservadora, por princípio, como já demonstrou Luciano Canfora (no livro "Crítica da Retórica Democrática"). Canfora sustenta, justamente, que as maiorias eleitorais são, muitas vezes, construídas por uma minoria organizada, o que constituiria uma aristocratização da democracia. Mas Cidinha fica no meio do caminho. E fica porque a concepção da democracia como exposição da vontade da maioria está na base de todas organizações de representação social do Brasil.
Segundo, porque o inverso da consulta popular cairia nas teias da teoria das elites. Pareto e Mosca foram os expoentes teóricos que naturalizaram as classes dirigentes no jogo social e político. Há muitos teóricos e países que creem na superioridade de uma elite mais preparada e racional que a maioria, a multidão envolvida em interesses egoístas ou paixões, que limita a capacidade de discernir sobre o justo e o privilégio, sobre o universal e o particular. As elites teriam preparo, tempo e estudo para refletir e ponderar racionalmente.
Enfim, Cidinha ataca a pessoa porque não se atreve a ir além.
Neste caso, parece temer a novidade que o partido de Marina representa no espectro partidário. Mais: parece temer a fragilidade política das organizações que defendem direitos civis no Brasil. Assim como os partidos que acolhem suas lideranças e agendas.
Marina procura articular uma agenda moderna (o desenvolvimento sustentável) com a ultraconservadora e fundamentalista (que conflita com a ampliação dos direitos civis no Brasil). Quando esteve em  Belo Horizonte, à convite da Fundação Dom Helder Câmara, questionei esta contradição de sua agenda. Marina se saiu com uma anedota (sobre a observação que cientistas faziam das práticas indígenas para ter certeza se choveria ou não) que me pareceu a defesa da superioridade do saber comunitário e tradicional sobre o científico. Enfim, Marina nunca escondeu sua agenda e rosário de crenças.
Ora, neste sentido, qual o problema dela expressar esta crença em um partido?
É que o problema de fundo não é este. O problema é que nós, que defendemos uma agenda de ampliação dos direitos civis e democráticos, de controle do Estado pela sociedade civil, não conseguimos ser populares. E, ainda: o lulismo, ao procurar a popularidade como uma meta, rebaixou seu programa e se submeteu aos valores fundamentalistas da maioria da nossa sociedade. Em outras palavras, abandonamos o dever da disputa cultural, da ação pedagógica, do debate de ideias e valores.
Gente como Cidinha entregou as armas da argumentação pelo caminho fácil da imposição do direito via decretos governamentais e uma ou outra lei discutida no parlamento. A rua foi abandonada. E é por este motivo que falar em ouvir as ruas atormenta tanto e parece uma ameaça.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Brasil com 4o PIB mundial?

Parece patriotada. Mas a projeção é da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC): em 2050 o Brasil terá o quarto maior PIB mundial, atrás apenas de Índia, EUA e China. Como se percebe, a economia mundial está mudando seu eixo de rotação. A previsão da PwC é que em 2017 a China passará a economia norte-americana. A Rússia deverá ultrapassar a Alemanha antes de 2030. Brasil e Índia ultrapassarão os dois países europeus em 2050. A PwC destaca custos de produção e tamanho do mercado consumidor como fatores positivos para nossa economia.
Lembremos que se o crescimento do PIB brasileiro não vem sendo coisa de gigante, é ainda mais promissor que os 2%, em média, que se estima para as potências mundiais atuais.
O estudo completo pode ser acessado AQUI

Articulação política pela educação domiciliar tenta outra vez

Agora foi a vez do fantástico. Eles já tentaram de todas as formas. E me parece evidente que se trata de um movimento político, ultraliberal ou ultraindividualista. Já debati com eles pelos jornais (incluindo Folha de São Paulo) e TV (Brasil das Gerais). Não tem jeito. Eles não entendem que educação é ato comunitário por princípio. Em casa, visa apenas o sucesso individual e não a socialização. Em outras palavras, é um desserviço social, que retorna à época dos preceptores. Mas não tem jeito. Eles continuam na cruzada envolvendo, inclusive, a imagem de seus filhos para se promoverem.
O que é pior: incautos embarcam nesta aventura pré-histórica acreditando que se trata de um ataque frontal à educação pública. Já seria um escândalo. Mas é bem pior que isto.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Estadão revela disputa entre ex-aliados do Papa

O jornal Estado de São Paulo aderiu, na edição de hoje, às análises que procuram revelar as disputas políticas no interior do Vaticano. Detalha o que muitos blogs e jornais europeus já haviam indicado: a figura soturna do cardeal Tarcisio Bertone, para muitos, o artífice de um governo paralelo. Bertone, que foi amigo pessoal de Bento 16, utilizou seu poder crescente para gerar conflito entre cardeais.
Vejam esta passagem da matéria do Estadão:

Suas decisões [do Papa] de punir cardeais simplesmente foram ignoradas ou levaram anos para serem cumpridas, em um desafio claro ao poder do papa. Foram os casos de Roger Mahony ou de Thomas Curry. Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, foi outro que acabou sendo protegido por anos, apesar das denúncias. Por mais que tenha tentado, Bento XVI jamais conseguiu implementar sua ideia "de tolerância zero" em relação à pedofilia. "Quanta sujeira na Igreja", chegou a declarar. Bento XVI também deu indicações de que poderia rever algumas de suas posições, como a questão do preservativo. Cardeais mostraram-se irritados e se apressaram em negar o debate. Esse não seria o único caso de desobediência. Bertone tomaria medidas à sua revelia, até mesmo punindo aliados do papa. Em uma ocasião, teria chorado.


 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Sejamos francos: o que esperar de um filme que se baseia num musical da Broadway, que tem como protagonista um ator de X-Men (Hugh Jackman, que faz o papel de Jean Valjean) e Sacha Baron "Borat" Cohen (como Monsieur Thénardier)?
Imagino que você pensaria duas vezes até decidir assistir. Foi o que aconteceu comigo.
Mas havia aquele outro lado. O filme é a obra de Victor Hugo, nada menos que Os Miseráveis. Esta obra, publicada em 1862, foi um dos primeiros best-sellers mundiais, vendendo 7 mil exemplares em um dia, só em Paris. Trata do período de formação da classe trabalhadora parisiense, que vivia em bairros centrais de maneira extremamente precária (lembrando em muito a descrição dos bairros operários ingleses que Engels faz em A Classe Trabalhadora na Inglaterra). Hugo descreve a epidemia de cólera que mata 32 mil pessoas em 1832, jogados em fossas comuns. Foi o estopim para inúmeras revoltas, incluindo as barricadas que derrubam Carlos X e que permanecem até 1848.
Apenas como nota de rodapé, lembro que Hugo tinha como pai um ateu republicano (admirador de Napoleão) e uma mãe católica (defensora da Casa Real). Ressalto este detalhe porque com seu pai na frente de batalha, Hugo foi morar num convento abandonado das Feuillantines, citado em Os Miseráveis. Com a Revolução de 1848, Victor Hugo abandona o catolicismo radical e abraça o republicanismo.
Dito isto, o filme surpreende. Primeiro, se concentrou na tradição de ter o texto cantado, fugindo das atualizações recentes de filmes musicais. Acabou por dar um tom mais reflexivo ao texto, porque obriga o espectador a acompanhar o texto para compreendê-lo. Esta escolha acaba por diluir as características marcantes dos atores. Por este motivo, fui pesquisar e acabei por descobrir que Sacha é formado em história pela Universidade de Cambridge! Mais: pesquisava sobre as raízes dos preconceitos contemporâneos!!!
Se a adaptação acaba por escorregar em certo didatismo, o conteúdo da obra é preservado. O sentimento de injustiça e a forte crítica ao establishment são nítidos, chegando ao ápice na cena final. Alguns críticos afirmaram que sentiram uma mera transposição do teatro para a telona. Talvez tenha sido exatamente isto que me atraiu.