quarta-feira, 16 de abril de 2014

Debate "Afinal, vai ter Copa?" (com Pablo Ortellado e Fidélis Alcântara/Copac)

2 comentários:

Fred Lima disse...

Prezado Rudá,
Gostei muito do debate. Acho que os movimentos sociais devem pensar que a elite não entende, nem nunca vai entender, a voz das ruas, uma vez que não conhece sua realidade. A mudança será realizada somente pelas vias legais, com engajamento político, com a eleição de pessoas comprometidas com a questão social no Brasil. Queimar concessionária de veículos não muda um país! O Félix está certo em suas colocações, então candidatem-se! Vamos mobilizar politicamente, vamos criar o Partido COPAC e criar "caso" na Câmara de Vereadores e na Assembléia Legislativa. Grande abraço.

Frederico

Guilherme Scalzilli disse...

O baile dos mascarados

Publicado no Le Monde Diplomatique Brasil

É fácil encontrar características do imaginário black bloc em outras formas de ativismo, especialmente as que compartilham a longeva herança anarquista. Mesmo as suas bases filosóficas mais recentes, cheias de biopotências, devires e outros conceitos intricados, agradam a um variado leque de opções militantes. Mas existe um diferencial poderoso no fenômeno black bloc: o uso obsessivo da palavra “tática” para definir-se.

A princípio, essa alcunha poderia insinuar um conceito instrumental da atitude rebelde, calcado na (enganadora) proposta de esvaziá-la de sentidos intrínsecos. O problema é que, manejada como simples ferramenta, a agressividade absorve a natureza dos objetivos aos quais se associa. Inclusive o espírito fascista, que costuma insinuar-se pelas fileiras anônimas de manifestações abertas a qualquer plataforma.

Não há risco de contaminação reacionária na militância mascarada, entretanto, pois ela sempre incorporou padrões reivindicatórios claros, escolhendo as circunstâncias mais convenientes à defesa das bandeiras genéricas (anticapitalismo, antiglobalização, etc) que lhe conferem uma identidade coesiva. Soa ingênuo, portanto, concluir que a mera falta de líderes e regras formais garante a autonomia e a descentralização dos seus adeptos. O próprio esforço para fazer da destruição seletiva uma mensagem, ou uma finalidade em si, descaracterizaria o suposto caráter espontâneo e intempestivo do gesto.

O enquadramento ideológico, a coerência programática e a dinâmica participativa demonstram que os blocos estão mais próximos de uma organização política do que o rótulo “tático” permite adivinhar. Têm afinidades, por exemplo, com as dissidências de esquerda que seguiram metodologias diversas no combate à ditadura militar. Nem todos os grupos armados achavam possível derrubar o regime, concentrando suas expectativas no apelo provocativo que ações de impacto poderiam ter sobre a sociedade.

É sob essa ótica organizacional que se revela a natureza propagandística dos ataques ao patrimônio privado. Eles visam chocar o público e marcar posição antagônica à dos meios ortodoxos de mobilização. O viés performático da ação direta alimenta a simbologia radical de uma revolta que não pode romper os laços com as instâncias representativas tradicionais, pois delas recebe um contraponto oportuno e uma base de potenciais seguidores. Sem vidraças quebradas, a ilusão da pureza “tática” desmorona.

A máscara participa da pantomima. É o ícone diferenciador do coletivo radical no ato de motivações pacíficas. Mas essa marca de funcionalidade também ajuda a incorporar os grupos black blocs às passeatas, que os assimilam como uma espécie de vanguarda protetora e reativa. Então eles se transformam na tropa de choque dos manifestantes.

O paralelo com as forças policiais não é gratuito. A indumentária significativa, o anonimato, o senso do dever e o uso seletivo (“tático”) da força compõem tanto os discursos dos repressores quanto os de seus adversários. Unidos no ódio pela imprensa, eles agora se espelham até na capacidade letal de atingir seus profissionais. Medindo pedras e balas, bombas e rojões, a opressão estatal legitima a violência dos anarquistas e vice-versa. Todos são parceiros de coreografia nesse carnaval midiático, fetiches úteis que o noticiário incentiva para despolitizar os movimentos sociais e a violência que eles sofrem.

(continua aqui: http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2014/03/o-baile-dos-mascarados.html)